2.11.25

O ESPIRITISMO E A PSICANÁLISE

Em "A Missão do Espiritismo" através do médium 'Hercílio Maes'; analisemos os falas de Ramatis sobre a Psicanálise.


PERGUNTA: Temos ouvido de alguns médicos que os fenômenos mediúnicos sob a égide do Espiritismo não passam de fatos exclusivos da esfera da “psicanálise” de Freud. Que dizeis?

RAMATÍS: Não há dúvida de que a maioria dos fenômenos mediúnicos se enquadram, em sua aparência, na psicologia individual e profunda do inconsciente, investigado por Sigmund Freud e generalizada sob o termo “Psicanálise”.

Mas é óbvio que as comunicações de espíritos desencarnados, embora guardem certas semelhanças com as manifestações assinaladas por Freud, não pertencem ao médium. 

Este é apenas um transmissor do psiquismo do espírito desencarnado. Em consequência, o espírito comunicante é que deveria ser psicanalisado e não o médium, simples intérprete da vontade alheia.


PERGUNTA: Quais os espíritos desencarnados que seriam passíveis de uma investigação ou pesquisa freudiana?

RAMATÍS: Sem dúvida, os espíritos sofredores, primários, desajustados ou perseguidores, que se comunicam nas sessões espíritas do tratamento espiritual, pois constituem farto material de identificação de recalques e demais tendências mórbidas freudianas.


PERGUNTA: Conforme preceitua a Psicanálise, quando esses complexos, tendências ou recalques mórbidos do inconsciente emergem à luz da consciência em vigília, através do método de Freud, o paciente livra-se da perturbação ou conflito psíquico. Não é assim?

RAMATÍS: Sim; pelo menos é assim que Freud propôs o seu método e lograva suas curas.


PERGUNTA: Desde que os espíritas aplicassem o mesmo método de investigação e terapêutica freudiana nos espíritos sofredores e enfermiços, que se comunicam pelos médiuns, isso não seria mais fácil para curá-los ou livrá-los das perturbações que ocorrem após a morte corporal?

RAMATÍS: O problema do espírito desencarnado é muitíssimo mais complexo e difícil de solução, se o compararmos com o mesmo método psicanalítico aplicado aos encarnados. 

Os homens enfermos da mente e passíveis de êxito na terapêutica freudiana são criaturas desajustadas ou complexadas com o “meio” ou existência em que vivem.

Após a correção mental e identificada a libido, a causa mórbida, a frustração enfermiça da infância ou juventude que os atormenta, os pacientes liberam-se de suas algemas ou estímulos inconscientes e perturbadores.

Depois de extinta no inconsciente a atividade da causa determinante de uma conduta indisciplinada, neurótica ou contraditória, a mente do enfermo passa a funcionar livre de impulsos incontroláveis ou direções indesejáveis. 

Isso melhora o seu contato com o ambiente e harmoniza suas relações com as pessoas do mundo, integrando-o numa existência normal livre de inibições ocultas, tornando mais afetivo e conciliador entre a família, amigos e estranhos.

Mas não adianta aplicar o método de investigação freudiana no espírito desencarnado e enfermo, que se manifesta através do médium, nem perquirir-lhe o inconsciente, exumando as raízes mórbidas de complexos e recalques culposos. 

Em verdade, as causas mórbidas não podem ser removidas do espírito desencarnado, porque elas estão ligadas ao mundo material na forma de crimes, calúnias, traições, rapinagens, perversidades, avarezas, luxúrias ou tirania! 

São dívidas ou “pecados” que praticou contra o próximo, e não produto de choques, conflitos ou desajustes da infância ou juventude, que depois passaram a ferir-lhe a mente desgovernada!

Não se trata de causas desconhecidas na vivência secreta do inconsciente, mas de acontecimentos positivos e degradantes, que foram estigmatizados na consciência sob a forma de remorsos, temores ou desesperos.

Em tal caso, o espírito sofredor não vive através dos médiuns uma condição contraditória e forjada por causas ignoradas no seu consciente; mas ele sofre os efeitos das mazelas praticadas com conhecimento de causa! 

O psicanalista poderia apenas identificar-lhe os quadros mórbidos, mas não poderia devolver o paciente para a vida física onde praticou os seus delitos! 

Ninguém poderá libertá-lo da lembrança dos atos censuráveis e conscientes que praticou no mundo material. Só através de novas existências se apagarão de sua memória esses efeitos daninhos. 

Aliás, também não seria possível livrá-la da região do astral inferior, onde se aloja todo delinquente espiritual, por força do seu magnetismo muito denso.

O espírito enfermo pode amenizar suas angústias e aflições pelo tratamento "evangélico" preceituado pelo Mestre Jesus, o médico das almas, enquanto será inócuo à cura pelo método freudiano.


PERGUNTA: Considerando que os espíritos, tanto encarnados como desencarnados, são entidades imortais que já viveram "outras vidas", isso não justifica o fato de também possuírem recalques, complexos ou tendências enfermiças passíveis do tratamento freudiano?

RAMATÍS: Atualmente os próprios psicanalistas e diversos psicólogos atenuaram bastante a cobertura da terminologia freudiana sobre a humanidade, pois até certo tempo seria muito difícil encontrar alguma criatura na Terra perfeitamente hígida de qualquer anomalia freudiana. 

O arsenal freudiano era imenso e possuía rótulos para todas as atitudes, atividades e composturas humanas. O mundo encheu-se de complexos, desde os mais ridículos até aos mais excêntricos.

Havia complexos de pobreza, de riqueza, de inferioridade, de superioridade, de glória, de derrota, de masculinidade, de feminilidade, de frustração, de castração, de Édipo ou de Eletra, atribuídos a efeitos causados pelos conflitos na infância. 

Muitos acontecimentos, impulsos e certas atividades que há milênios perturbam a humanidade na terminologia simplista dos "pecados" tradicionais e quando o homem luta contra sua própria organização espiritual, serviram de alimento a numerosas obras excêntricas baseadas na sistematização de Freud. 

A nova rotulagem médica matou fragorosamente as velhas "fobias" habituais da circulação humana; "claustrofobia" virou complexo de prisão e o medo da multidão enquadrado na "agorafobia", passou a fomentar o complexo de inferioridade! 

Aliás, seguindo o mesmo critério, nem o próprio Jesus, o mais sábio e equilibrado dos homens, escaparia da mania freudiana. O Divino Mestre seria também um doente recalcado, portador do "complexo messiânico", quiçá, produzido por alguma arrasadora frustração de comando, na infância!

Em consequência, e sob a luz de Freud, qualquer homem há de ter o seu complexozinho para ser exumado lá do inconsciente sob a perícia de sentencioso psicanalista. 

O recalque há de ser, pelo menos, proveniente de algum susto ante o grito intempestivo de um papagaio, da cena em que o progenitor enraivecido atirou um prato na progenitora tagarela, ou, talvez, a frustração na infância por não ter ganho a bicicleta ou a gaitinha, no Natal!


PERGUNTA: Porventura, os médiuns não possuem recalques ou complexos passíveis de um exame psicanalítico? Não é possível que confundam mediunidade com certos recalques ou complexos freudianos?

RAMATÍS:
Afora os exageros e as fantasias dos psicanalistas, Freud, realmente, identificou muitas causas mórbidas radicadas no subconsciente, aplicando uma técnica revolucionária de todos os métodos e estudos psicológicos anteriores. 

Sem dúvida, há médiuns de "mesa" ou de "terreiro", que requerem uma drenagem freudiana a fim de melhorarem o seu contato com o mundo psíquico e distinguirem a sua interferência anímica nas comunicações com os falecidos. 

Tanto na seara espírita, como nos terreiros de Umbanda, ainda pontificam criaturas neuróticas, esquizofrênicas, exaltadas, neurovegetativas e histéricas que em contato empobrecido com o Além-túmulo, ainda confundem seus próprios recalques, impulsos enfermiços, complexos e alucinações à guisa de manifestações de espíritos!

Não há dúvida de que o médium, em geral, veste nossas ideias com algo de sua natureza anímica, podendo deformar parte dos nossos pensamentos pela sua maneira de sentir e pensar! 

Evidentemente, uma boa garimpagem psicanalítica talvez poderia sanear a mente complicada de muitos médiuns, ajustando-os na sua função de intérpretes do Além.


PERGUNTA: Poderíeis dar-nos alguns exemplos mais concretos?

RAMATÍS: Há médiuns anímicos muito indisciplinados em suas emoções além de entontecidos pelo excesso de fantasia motivado pelas imagens que bailam na sua mente descontrolada. 

Quando histéricos, exaltados, neurovegetativos ou esquizofrênicos, transferem facilmente para a atividade mediúnica os fatos ou simpatias que mais os impressionaram na existência. 

Os grandes líderes, profetas, santos, escritores, artistas, governadores, ministros e demais personalidades que se destacam no cenário do mundo material exercem profunda impressão nos médiuns muito anímicos. 

Então eles substituem os seus próprios guias espirituais com os nomes mais em evidência na história religiosa ou literatura profana. 

Através de supostas comunicações mediúnicas do Além, os personagens exaltados nos romances de fundo histórico ou grandes vultos da ciência, ainda continuam a se manifestar com insistência em certos trabalhos espiríticos, copiando as mesmas características que há séculos deveriam ter possuído em vida.

Sob tais condições, então predominam as ideias fixas, os falsos messianismos, auto exaltações, recalques, fobias e sublimações enganosas. 

Embora esses médiuns sejam vítimas de sua própria exaltação psíquica, agindo sem má intenção, tornam-se improdutivos e até semeiam prejuízos por confundirem o sensato com o ridículo e o verdadeiro com o falso! 

Sem dúvida, o método de psicanálise freudiano poderia ajudar esses médiuns quanto à drenagem de suas próprias contradições e complexos levados à conta de mediunidade!


PERGUNTA: Qual é a diferença mais acentuada entre a psicanálise de Freud e o Espiritismo de Kardec?

RAMATÍS: Enquanto a Psicanálise limita-se a perquirir na intimidade humana as "emersões" do subconsciente, recalques, libido ou complexos que presume adquiridos numa só existência terrestre, o Espiritismo estuda a personalidade humana em área bem mais extensa, porque analisa e esclarece acontecimentos mórbidos característicos de outras vidas pregressas. 

Daí, a limitação de Freud, que investigando fatores mórbidos nos homens, apenas do berço ao túmulo de uma só existência, ignorou que a verdadeira individualidade do homem gerada no tempo e no espaço, remonta a alguns milênios. 

Inúmeros fenômenos enfermiços, cuja origem prendia-se a acontecimentos seculares, Freud os classificou na singeleza de uma existência terrena, ou seja, em alguns "minutos" de vida do espírito milenário. 

Acontecimentos mórbidos fixados na contextura imortal do perispírito foram analisados à conta de fatos e conflitos ocorridos na infância do paciente! 

Enquanto Freud procurava examinar a personalidade humana decorrida na precariedade de uma vida carnal, o Espiritismo remonta aos milênios no estudo do espírito imortal!


PERGUNTA: Porventura, a fonte de investigação ou exumação de Freud, não era o subconsciente, e que os espíritas também consideram o repositório de vidas passadas? Em consequência, ao examinar certas origens mórbidas, ele também estaria investigando o passado milenário do espírito. Não é assim?

RAMATÍS: Sem dúvida, o subconsciente é o "porão" dos desejos, impulsos, emoções ou estímulos, que ali são guardados após o "confere" do consciente. 

É uma espécie de "guarda-roupa" da memória instintiva em que o espírito costuma arquivar tudo aquilo que o impressiona e domina. 

A herança dos instintos animais também se fixa nesse "porão" da individualidade humana, agindo na forma de automatismos que podem operar mesmo sem a aprovação da consciência. 

O homem ainda nutre e repara os prejuízos do seu edifício celular sem necessidade de cogitar disso conscientemente, porque o seu subconsciente trata do assunto de modo satisfatório, esclarecido pela experiência milenária.

Mas Sigismundo Freud equivocou-se, quando confundiu as aquisições mentais e emotivas do espírito humano através de várias encarnações na Terra, como acontecimentos oriundos de uma só existência humana. 

Apesar da sua terminologia brilhante, pesquisa sincera e obstinada, inclusive suas concepções da libido como desejo e força oriunda do instinto sexual, ou "instinto vital", segundo Jung, ele apenas investigou um fragmento do espírito imortal. 

Suas teorias impressionantes para os doutos da época, enfraqueceram em sua vitalidade científica porque ele desconhecia a reencarnação do espírito nas vidas sucessivas. 

Ademais, Freud, como diversos outros pesquisadores, ignorava que a maioria dos distúrbios nervosos, mentais ou emotivos radicavam-se fundamentalmente no perispírito preexistente e sobrevivente à morte do corpo físico.

Inúmeras psicoses do sexo, impulsos delinquentes, condutas excêntricas ou extravagantes, nada mais são do que produtos do impacto "pré-reencarnatório" do espírito naufragado no vórtice das paixões e dos instintos inferiores em vidas pregressas. 

Muitos complexos de inferioridade, de Édipo ou de Eletra, assinalados pelos "experts" da psicanálise, são de projeções mórbidas do pretérito, e não reflexos da infância humana! 

Há frustrações seculares vibrando na contextura delicada do perispírito do homem, que jamais poderão ser curadas pela terapêutica de Freud fundamentada em uma só vida carnal! 

São acontecimentos que traumatizaram uma existência inteira no passado, cujos estímulos mórbidos ainda centuplicaram-se na vivência do espírito desencarnado e sob intenso desespero, no Além-túmulo.

Os psicanalistas não poderão libertar seus pacientes de recalques ou, complexos, cuja origem se perde na trama secular ou milenária das, encarnações pregressas! 

São distúrbios gerados pelo ódio, egoísmo, orgulho, pela ambição, crueldade, vingança ou cobiça! 

Em tais casos, os postulados brilhantes e sugestivos de Freud são inócuos para a solução de problemas espirituais, sensíveis unicamente à medicação do Evangelho do Cristo! 

Jamais, os sentimentos e atos-pecaminosos produzidos pelo espírito em suas vidas sucessivas, podem lograr solução satisfatória na pesquisa de acontecimentos ocorridos na infância do homem, situados no prazo de uma só existência carnal.


PERGUNTA: Gostaríamos de entender melhor esse assunto!

RAMATÍS: O Espírito reencarnado sofre o assédio incessante dos estímulos enfermiços das existências anteriores. 

Há criminosos que ainda guardam no recôndito da memória perispiritual a cena do crime infamante; caluniadores de ontem vivem assustados temendo a descoberta de suas violências passadas; tiranos trafegam desesperados pelas ruas das cidades, fugindo inconscientemente dos gritos de suas vítimas seculares. 

Há espíritos que lutam apavorados contra os estímulos suicidas de vidas pregressas; mulheres tentam a santidade ainda sentindo nos lábios o gosto amargo do lodo da prostituição; homens de talento vagueiam a esmo acicatados pelas imagens torpes da literatura fescenina e libidinosa que infiltraram outrora na mente da juventude; criaturas aparentemente sadias, empalidecem e tremem no cenário da igreja que conspurcaram no passado ou desmaiam ante os cepos sangrentos dos açougues, revivendo na memória perispiritual a sua vivência de "carrasco" no passado!

Jamais Freud e seus seguidores poderiam identificar a libido desses seres, recorrendo sumariamente aos acontecimentos da infância e dos conflitos emotivos dos seus progenitores. 

Terão de penetrar no passado reencarnatório da alma eterna! Então, poderão reajustar suas classificações mórbidas e ampliar seu repertório freudiano, anotando, indiscutivelmente, os "complexos" pré reencarnatórios, tais como complexos de suicídio, calúnia, ódio, tirania, crueldade, perversidade, luxúria ou de rapina.

Por isso, a terapêutica espírita é muitíssimo superior à análise freudiana, porque além de remontar às causas' "pré-encarnatórias", ainda oferece o medicamento eficiente do Evangelho para a higienização do espírito eterno. 

A psicanálise convence o paciente de que determinadas perturbações são provenientes de conflitos e acontecimentos vividos na infância. 

O Espiritismo, no entanto, aponta a delinquência do espírito, no passado, mas lhe oferece a oportunidade de reajuste pela submissão ao processo cármico das vidas sucessivas! 

O espírito é classificado como devedor, mas também recebe o endosso espiritual para liquidar seu débito conforme sua capacidade e entendimento!


PERGUNTA: Sob vossa opinião, o método desenvolvido por Freud na pesquisa da mente humana trouxe algum benefício à humanidade?

RAMATÍS: Incontestavelmente! Sigismundo Freud aproximou-se da verdadeira luta espiritual do ser na escalonada e classificou inúmeros problemas do espírito ainda preso nos liames da vida inferior! 

No entanto, não alcançou a solução, porque como já dissemos, atribuiu, restringiu a uma só vida, recalques ou taras que vinham se complicando há séculos. 

Suas palavras eruditas e alentadas exposições como legista das enfermidades mentais, foram motivo de satisfação para muitos curiosos e exigentes escravos da terminologia acadêmica. 

No entanto, não puderam oferecer o remédio positivo, que é fruto do amor e do entendimento espiritual!

No entanto, hoje não se ignora que a mente humana pode ser clinicada e cuidada tanto quanto o corpo físico! Embora vos pareça fantasia, a cirurgia do corpo evolui para a cirurgia do espírito; no futuro, caberá ao médico operar determinada afecção mental, como se faz hoje na rudeza de eliminar um quisto ou apêndice! 

As excrescências e deformações que se produzem em torno da alma, têm suas raízes mórbidas fixadas no passado, assim como o câncer emite suas ramificações nas entranhas do organismo carnal!

Em consequência, mal grado a frieza e a indiferença espiritual da teoria de Freud, não podemos olvidar que ele deu início ao verdadeiro processo de investigação e cirurgia da mente enfermiça, assinalando aos cientistas modernos o processo e o fundamento de inúmeras anomalias radicadas exclusivamente na atividade mental do ser! 

Ele fez-nos sentir o poder fabuloso da mente e a veracidade de que o espírito pode enfermar o corpo!

Namastê / Laroyê

27.10.25

COMUNICAÇÃO MEDIÚNICA COM UM ESPÍRITO DO PLANETA JÚPITER

Essa comunicação ocorreu através da mediunidade de Allan Kardec com uma entidade do Planeta Júpiter, e esse contato completo esta narrado na Revista Espírita publicada em 09/03/1958.


NOTA: Por evocações anteriores, sabíamos que Bernard Palissy, o célebre oleiro do século XVI, habita Júpiter. 

As respostas que se seguem confirmam, em todos os pontos, quanto nos foi dito sobre esse planeta, em várias ocasiões, por outros Espíritos e através de diferentes médiuns. 

Pensamos que serão lidas com interesse, como complemento do quadro que traçamos em nosso último número. 

A identidade que apresentam com as descrições anteriores é um fato notável que vale pelo menos como uma presunção de exatidão.

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Para onde foste ao deixar a Terra?

─ Ainda me demorei nela.


Em que condições estavas aqui?

─ Sob o aspecto de uma mulher amorosa e dedicada. Era uma simples missão.


Essa missão durou muito?

─ Trinta anos.


Lembras-te do nome dessa mulher?

─ Era obscuro.


Agrada-te a estima em que são tidas as tuas obras? Isto te compensa os sofrimentos que suportaste?

─ Que me importam as obras materiais de minhas mãos? O que me importa é o sofrimento que me elevou.



Com que fim traçaste, pela mão do Sr. Victorien Sardou [1] os admiráveis desenhos que nos deste sobre o planeta Júpiter, onde habitas?

─ Com o fim de vos inspirar o desejo de vos tornardes melhores.



Tendo em vista que vens com frequência a esta Terra que habitaste várias vezes, deves conhecer bastante o seu estado físico e moral para estabelecer uma comparação entre ela e Júpiter. Pediríamos que nos elucidasses sobre diversos pontos.

─ Ao vosso globo venho apenas como Espírito. O Espírito não tem mais sensações materiais.



Pode-se comparar a temperatura de Júpiter à de uma de nossas latitudes?

─ Não. Ela é suave e temperada; é sempre igual, enquanto a vossa varia. Lembrai-vos dos Campos Elíseos, cuja descrição já vos fizeram.



O quadro que os Antigos nos deram dos Campos Elíseos seria resultado do conhecimento intuitivo que eles tinham de um mundo superior, tal como Júpiter, por exemplo?

─ Do conhecimento positivo. A evocação permanecia nas mãos dos sacerdotes.



A temperatura, como aqui, varia conforme a latitude?

─ Não.



Segundo os nossos cálculos, o Sol deve aparecer aos habitantes de Júpiter em tamanho muito pequeno e, consequentemente, dar muito pouca luz. Podes dizer-nos se a intensidade da luz é ali igual à da Terra ou se é menos forte?

─ Júpiter é cercado de uma espécie de luz espiritual, em relação com a essência de seus habitantes. A luz grosseira de vosso Sol não foi feita para eles.



Há uma atmosfera?

─ Sim.



A atmosfera de Júpiter é formada dos mesmos elementos que a atmosfera terrestre?

─ Não. Os homens não são os mesmos. Suas necessidades mudaram.



Lá existe água e mares?

─ Sim.



A água é formada dos mesmos elementos que a nossa?

─ Mais etérea.


Há vulcões?

─ Não. Nosso globo não é atormentado como o vosso. Lá a Natureza não teve suas grandes crises. É a morada dos bem-aventurados. Nele, a matéria quase não existe.



As plantas têm analogia com as nossas?

─ Sim, mas são mais belas.



A conformação do corpo dos seus habitantes tem relação com a nossa?

─ Sim, ela é a mesma.



Podes dar-nos uma ideia de sua estatura, comparada com a dos habitantes da Terra?

─ Grandes e bem proporcionados. Maiores que os vossos maiores homens. O corpo do homem é como o molde de seu espírito: belo, onde ele é bom. O envoltório é digno dele: não é mais uma prisão.



Lá os corpos são opacos, diáfanos ou translúcidos?



─ Há uns e outros. Uns têm tal propriedade, outros têm outra, conforme a sua finalidade.



Compreendemos isto em relação aos corpos inertes. Mas nossa pergunta refere-se aos corpos humanos.

─ O corpo envolve o Espírito sem ocultá-lo, como um tênue véu lançado sobre uma estátua. Nos mundos inferiores o envoltório grosseiro oculta o Espírito aos seus semelhantes. Mas os bons nada mais têm a ocultar: cada um pode ler no coração dos outros. Que aconteceria se assim fosse aqui?



Lá existe diferença de sexo?

─ Sim, há por toda parte onde existe a matéria; é uma lei da matéria.



Qual é a base da alimentação dos habitantes? É animal e vegetal como aqui?

─ Puramente vegetal. O homem é o protetor dos animais.



Disseram-nos que parte de sua alimentação é extraída do meio ambiente, cujas emanações eles aspiram. É verdade?

─ Sim.



Comparada com a nossa, a duração da vida é mais longa ou mais curta?

─ Mais longa.



Qual é a duração média da vida? 

─ Como medir o tempo?



Não podes tomar um dos nossos séculos como termo de comparação?

─ Creio que mais ou menos cinco séculos.



O desenvolvimento da infância é proporcionalmente mais rápido que o nosso?

─ O homem conserva sua superioridade: a infância não comprime a inteligência nem a velhice a extingue.



Os homens são sujeitos a doenças?

─ Não estão sujeitos aos vossos males.



A vida está dividida entre o sono e a vigília?

─ Entre a ação e o repouso.



Poderias dar-nos uma ideia das várias ocupações dos homens?

─ Teria que falar muito. Sua principal ocupação é o encorajamento dos Espíritos que habitam os mundos inferiores, a fim de que perseverem no bom caminho. 

Não havendo entre eles infortúnios a serem aliviados, vão procurá-los onde esses existem: são os bons Espíritos que vos amparam e vos atraem para o bom caminho.



Lá são cultivadas algumas artes?

─ Lá elas são inúteis. As vossas artes são brinquedos que distraem as vossas dores.



A densidade específica do corpo humano permite ao homem transportar-se de um a outro ponto, sem ficar, como aqui, preso ao solo?

─ Sim.



Existem lá o tédio e o desgosto da vida?

─ Não. O desgosto da vida origina-se no desprezo de si mesmo.



Sendo o corpo dos habitantes de Júpiter menos denso que os nossos, é formado de matéria compacta e condensada ou vaporosa?

─ Compacta para nós, mas não para vós. Ela é menos condensada.



O corpo, considerado como feito de matéria, é impenetrável?

─ Sim.



Os habitantes têm, como nós, uma linguagem articulada?

─ Não. Há entre eles a comunicação pelo pensamento.



A segunda vista é, como nos informaram, uma faculdade normal e permanece entre vós?

─ Sim. O Espírito não conhece entraves. Nada lhe é oculto.



Se nada é oculto ao Espírito, conhece ele o futuro? (Referimo-nos aos Espíritos encarnados em Júpiter).

─ O conhecimento do futuro depende do grau de perfeição do Espírito: isto tem menos inconvenientes para nós do que para vós; é-nos mesmo necessário, até certo ponto, para a realização das missões de que nos incumbem. Mas dizer que conhecemos o futuro sem restrições seria nivelar-nos a Deus.



Podeis revelar-nos tudo quanto sabeis sobre o futuro?

─ Não. Esperai até que tenhais merecido sabê-lo.



Comunicai-vos mais facilmente que nós com os outros Espíritos?


─ Sim; sempre. Não existe mais a matéria entre eles e nós.



A morte inspira o mesmo horror e pavor que entre nós?

─ Por que seria ela apavorante? Entre nós já não existe o mal. Só o mau se apavora ante o seu último instante. Ele teme o seu juiz.



Em que se transformam os habitantes de Júpiter depois da morte?

─ Crescem sempre em perfeição, sem passar por mais provas.



Não haverá em Júpiter Espíritos que se submetam a provas a fim de cumprir uma missão?

─ Sim, mas não é uma prova. Só o amor do bem os leva ao sofrimento.



Podem eles falhar em sua missão?

─ Não, porque são bons. Só existe fraqueza onde há defeitos.



Poderias nomear alguns dos Espíritos habitantes de Júpiter que tenham desempenhado uma grande missão na Terra?

─ São Luís.



Não poderias nomear outros?

─ Que vos importa? Há missões desconhecidas, cujo objetivo é a felicidade de um só. Por vezes são as maiores e as mais dolorosas.



O corpo dos animais é mais material que o dos homens?

─ Sim. O homem é o rei, o deus planetário.



Há animais carnívoros?

─ Os animais não se estraçalham mutuamente. Vivem todos submetidos ao homem e se amam entre si.



Há porém animais que escapam à ação do homem, assim como os insetos, os peixes e os pássaros?

─ Não. Todos lhe são úteis.



Disseram-nos que os animais são os operários e os capatazes que executam os trabalhos materiais, constroem as habitações, etc. É exato?

─ Sim. O homem não mais se rebaixa para servir ao semelhante.



Os animais servidores estão ligados a uma pessoa ou família, ou são tomados e trocados à vontade, como aqui?

─ Todos estão ligados a uma família particular. Vós mudais à procura do melhor.



Os animais servidores vivem em escravidão ou no estado de liberdade? São uma propriedade, ou podem, à vontade, mudar de patrão?

─ Estão no estado de submissão.



Os animais trabalhadores recebem alguma remuneração por seus trabalhos?

─ Não.



As faculdades dos animais são desenvolvidas por uma espécie de educação?

─ Eles as desenvolvem por si mesmos.



Têm os animais uma linguagem mais precisa e caracterizada que a dos animais terrenos?

─ Certamente.



As habitações de que nos deste uma mostra nos teus desenhos estão reunidas em cidades como aqui?

─ Sim. Aqueles que se amam se reúnem. Só as paixões estabelecem a solidão em torno do homem. 

Se o homem ainda mau procura o seu semelhante, que é para ele um instrumento de dor, por que o homem puro e virtuoso deveria fugir de seu irmão?



Os Espíritos são iguais ou de várias graduações?

─ De diversos graus, mas da mesma ordem.



Pedimos que te reportes especialmente à escala espírita que demos no segundo número da Revista e que nos digas a que ordem pertencem os Espíritos encarnados em Júpiter.

─ Todos bons, todos superiores. Por vezes o bem desce até o mal; entretanto, o mal jamais se mistura com o bem.



Os habitantes formam diferentes povos como aqui na Terra?

─ Sim, mas todos unidos entre si pelos laços do amor.



Sendo assim, as guerras são desconhecidas?

─ Pergunta inútil.



O homem poderá chegar, na Terra, a um tal grau de perfeição que a guerra fosse desnecessária?

─ Ele chegará a isto, sem a menor dúvida. A guerra desaparecerá com o egoísmo dos povos e à medida que melhor seja compreendida a fraternidade.



Os povos são governados por chefes?

─ Sim.



Em que consiste a autoridade dos chefes?

─ No seu grau superior de perfeição.



Em que consiste a superioridade e a inferioridade dos Espíritos em Júpiter, de vez que todos são bons?

─ Eles têm maior ou menor soma de conhecimentos e de experiência; depuram-se à medida que se esclarecem.



Como aqui na Terra, lá existem povos mais ou menos avançados que outros?

─ Não, mas entre os povos há diversos graus.



Se o povo mais adiantado da Terra fosse transportado para Júpiter, que posição ocuparia?

─ A que entre vós é ocupada pelos macacos.



Lá os povos se regem por leis?

─ Sim.



Há leis penais?

─ Não há mais crimes.



Quem faz as leis?

─ Deus as fez.



Há ricos e pobres? Por outras palavras: há homens que vivem na abundância e no supérfluo e outros a quem falta o necessário?

─ Não. Todos são irmãos. Se um possuísse mais do que o outro, com esse repartiria; não seria feliz quando seu irmão fosse necessitado.



De acordo com isso as fortunas de todos seriam iguais?

─ Eu não disse que todos são igualmente ricos. Perguntaste se haveria gente com o supérfluo enquanto a outros faltasse o necessário.



As duas respostas se nos afiguram contraditórias. Pedimos que estabeleças a concordância.

─ A ninguém falta o necessário; ninguém tem o supérfluo. Por outras palavras, a fortuna de cada um está em relação com a sua condição. Estais satisfeito?



Agora compreendemos. Mas te perguntamos, entretanto, se aquele que tem menos não é infeliz em relação àquele que tem mais?

─ Ele não pode sentir-se infeliz, se nem é invejoso nem ciumento. A inveja e o ciúme produzem mais infelizes que a miséria.



Em que consiste a riqueza em Júpiter?

─ Em que isto vos importa?



Há desigualdades sociais?

─ Sim.



Em que estas se fundam?

─ Nas leis da sociedade. Uns são mais adiantados que outros na perfeição. Os superiores têm sobre os outros uma espécie de autoridade, como um pai sobre os filhos.



As faculdades do homem são desenvolvidas pela educação?

─ Sim.



Pode o homem adquirir bastante perfeição na Terra para merecer passar imediatamente a Júpiter?

─ Sim. Mas na Terra o homem é submetido a imperfeições a fim de estar em relação com os seus semelhantes.



Quando um Espírito deixa a Terra e deve reencarnar-se em Júpiter, fica errante durante algum tempo, até encontrar o corpo a que se deve unir?

─ Fica errante durante algum tempo, até que se tenha livrado das imperfeições terrenas.



Há várias religiões?

─ Não. Todos professam o bem e todos adoram um só Deus.



Há templos e um culto?

─ Por templo há o coração do homem; por culto, o bem que ele faz.



Victorien Sardou, médium psicógrafo que trabalhou com Allan Kardec. Embora não soubesse desenho, foi o instrumento para os esplêndidos quadros de cenas de outros planetas. 

Foi membro da Academia Francesa e um dos mais fecundos comediógrafos franceses. Fonte: IPEAK


Namastê / Laroyê

26.10.25

O ESPIRITISMO E O BUDISMO

Em "A Missão do Espiritismo" através do médium 'Hercílio Maes'; analisemos os falas de Ramatis sobre o Budismo.


PERGUNTA: Há quem considere Buda superior a Jesus! Que dizeis?

RAMATÍS: Jesus é o sintetizador de todos os credos, doutrinas e religiões do mundo porque é o Governador Espiritual da Terra. 

Jamais deveis preocupar-vos quanto à sua superioridade sobre determinado instrutor religioso que o tenha precedido. 

Os antecessores de Jesus aplainaram-lhe o caminho para o melhor entendimento iniciático de sua paixão e crucificação. 

No entanto, cada um desses instrutores trouxe mensagem adequada a certo tipo de raça ou povo, ensinando-lhes a imortalidade da alma e os deveres do espírito encarnado em afinidade com os postulados evangélicos de Jesus.

Confúcio aplainou o caminho na China, Krishna na Índia, Zoroastro na Pérsia, Hermes no Egito, Orfeu na Grécia e Buda na Ásia. Todos eles pregaram conceitos semelhantes aos que Jesus depois iria proclamar na Judéia, embora sob as características peculiares do seu povo. 

Eles foram a preliminar do Cristo Jesus, os niveladores do terreno agreste e erosado para a compreensão futura do Cristianismo. Buda também transmitiu aos asiáticos mensagem renovadora em perfeita eletividade com a mensagem de Jesus, embora rescendendo ao perfume peculiar da filosofia oriental.


PERGUNTA: Como se iniciou a missão de Buda?

RAMATÍS: O príncipe Siddharta Sakya-muni Gautama, mais tarde conhecido por Buda, o “Senhor da Mente”, o “Esclarecido”, nasceu na Índia, nas fímbrias do Himalaia e cresceu entre os prazeres da corte real de Kapilavastu. 

Era um jovem belo, disputado pelas jovens, mas se mostrava inquieto mesmo entre a incalculável riqueza, glória e o conforto principesco.

Certa vez, saindo do palácio às ocultas, encontrou em seu caminho mendigos, aleijados e enfermos, o que nunca lhe acontecia quando em viagem oficial, pois os infelizes estropiados e párias, sob pena de morte, eram proibidos de se mostrar na rua, para não constrangerem a visão do glorioso príncipe Sakya-muni. 

Profundamente impressionado pela desdita humana que ele não conhecia, sentiu-se infeliz vendo os seus compatriotas desditosos. 

Certa noite em que se realizava esplêndida festa em seu palácio, ele desapareceu disposto a compartilhar da dor dos seus semelhantes e aliviar-lhes o fardo do sofrimento.

Era uma alma elevada e realmente missionária; e por isso feriram-lhe o coração as aflições dos infelizes do mundo. O seu amor à natureza era inconcebível, pois devotava carinho à mais singela flor. 

Muito sensível às inspirações do mundo espiritual, gostava de pensar em silencioso recolhimento, junto à natureza, meditando longas horas sobre o motivo da existência e do sofrimento humano. 

Em breve tempo percebeu quanto o homem ainda se escraviza às superstições, aos sacrifícios inúteis e repugnantes, aos fanatismos separativistas e odientos.

Pressentindo na própria alma a natureza ardente e gloriosa do seu Criador, tentou transferir para os seus discípulos a ideia e o sentimento que lhe dominavam o ser com respeito à Divindade. 

Mas, em breve, verificou a impossibilidade de os homens compreenderem a existência de Deus, ou mesmo alguma idei aproximada do Absoluto.

Buda confirmou a reencarnação admitida na Índia desde os Vedas; e esclareceu os seus seguidores quanto à Lei do Carma, explicando que o espírito do homem deve libertar-se conscientemente do cárcere corporal para então alcançar o Nirvana ou a região da eterna bem-aventurança!

Ensinou que toda miséria e sofrimento humano é fruto das ambições desmedidas e egoístas, fruto do desejo incansável de posse e prazer sensual. 

O budista não devia roubar, mesmo para matar a fome; não mentir, nem se embriagar; evitar os pecados do ódio, da ambição, da preguiça, da arrogância, da avareza e da impudicícia. 

Ensinava a paciência, a humildade, e a ternura para vencer os duros de coração. Enfim, o Budismo, hoje, ainda se consagra pelas máximas ou oito conceitos seguintes: 

Ação reta, existência reta, linguagem reta, visão reta, vontade reta, aplicação reta, pensamento reto e meditação reta, equivalentes à boa regra de vida, bons sentimentos, boas ideias, boas palavras, boa conduta, bons esforços e boa meditação.


PERGUNTA: Qual é a diferença mais generalizada entre o Espiritismo e o Budismo?

RAMATÍS: Sem dúvida, é a grande diferença de compreensão e temperamento que existe entre o Oriente e o Ocidente. 

Enquanto os orientais, principalmente os hindus, são meditativos e buscam aprender a realidade imortal no silêncio da alma, os ocidentais são dinâmicos e procuram o conhecimento através das formas ou da manifestação fenomênica do mundo. 

"O ocidental considera o Universo pelo lado de fora, por suas manifestações externas, concretas, palpáveis, visíveis; o oriental nasce com a intuição interiormente, considerando o aspecto externo efeitos de uma Causa invisível, mas não a Realidade. 

Por isto, não há no Oriente ateus nem materialistas; a sua consciência habitual vive noutra dimensão, pois a realidade invisível é para ele o objeto de intuição espiritual e lhe dá plena certeza. 

Para o oriental o visível é derivado do invisível; para o ocidental, o invisível é efeito do visível. Para o oriental, os ocidentais são caçadores de sombras - o Maya, a ilusão. 

O oriental vive muito alheio às coisas da vida terrestre; o ocidental vive engolfado nas coisas terrenas; realiza mais coisas em redor de si do que o seu próprio eu interno." (Trecho extraído da obra: "Espírito da Filosofia Oriental", de Huberto Rohden).

A vida inquieta e tumultuosa do Ocidente só proporciona ao ser o entendimento das coisas espirituais através da própria vivência cotidiana, desatinada, enquanto os orientais podem devotar-se mais intensamente à meditação na tranquilidade da natureza e no fervor das coisas íntimas do espírito. 

A figura tradicional do Mestre sereno a palmilhar os caminhos poéticos e as veredas calmas da índia, não se ajusta ao turbilhão fatigante do Ocidente. 

A vida ocidental é ruidosa, prenhe de buzinas, gritos, pregões, apitos e barulhos ensurdecedores; as criaturas atravessam as ruas, apressadas, aos saltos diante dos veículos, aos empurrões nos ônibus e nervosas pela perda de tempo nas extensas filas. 

As exigências incessantes do mundo exterior, arrasando os sentidos humanos, impossibilitam o homem de sua concentração interior e a mobilização de suas forças espirituais. 

A sua frente reclama ou interfere o esmoler, o fiscal de trânsito, o bilheteiro, o cobrador, o vendedor de bugigangas, o propagandista, a reação do transeunte impaciente, o som estridente dos alto falantes e o barulho atordoante dos caminhões!

O Mestre Oriental é consagrado pelas suas vestes níveas e longas, o turbante imaculado e olhar sereno, impassível diante dos acontecimentos mais tormentosos e avançados do mundo material. 

Seus gestos são comedidos e suas palavras de alta sabedoria. No entanto o mestre ocidental atravessa as ruas apressado, perdido entre as multidões azafamada e cumprindo as tarefas mais prosaicas.

Ninguém o conhece como chefe de seita sigilosa ou instrutor de confraria iniciática; porém, ele surge no momento apropriado, como o cidadão comum, mas capacitado para aconselhar soluções no plano da espiritualidade, reajustar temperamentos atormentados e orientar com sabedoria o seu próximo. 

É também sujeito aos horários rígidos, obrigado ao transporte comum, responsável pela família ou parentela, sujeito às obrigações do fisco do mundo. 

Então, retorna ao lar, exausto, inquieto e mesmo nervoso, conclamado a resolver e atender os problemas domésticos em comum e amenizar os conflitos da família humana.

Quando se desobriga de todas os providências e responsabilidades de fora ou de dentro do lar, domina-o o cansaço e sobra-lhe pouco tempo para a meditação peculiar aos orientais. 

Consome alguns minutos ou mesmo algumas horas na pesquisa sobre os princípios do mundo espiritual e da melhor conduta humana de seus irmãos. 

Há em si, espontaneamente, o desejo ardente de servir o próximo, auxiliá-lo em suas dores e solucionar seus problemas porque vibra em sua alma a mesma ansiedade do instrutor, variando, apenas, quanto ao ambiente onde Deus o colocou para o serviço benfeitor.


PERGUNTA: Quereis dizer que o homem do Ocidente está mais desamparado de ensinamentos tão proveitosos, quanto aos benefícios que recebem os orientais?

RAMATÍS: Apenas expomos que a turbulência da vida ocidental exige doutrina ou religião perfeitamente em sintonia com essa atividade desordenada. 

O povo ocidental precisa de ensinamentos sintéticos e popularizados, que lhe sirvam a toda hora e lhe concedam a oportunidade de graduar-se progressivamente entre a poeira do mundo, mas sem abandonar suas obrigações onerosas no seio da sociedade, do trabalho, do estudo, do esporte e até da diversão.

Em consequência, é o Espiritismo, realmente, a doutrina no século XX mais indicada para atender as necessidades do homem, ensinando-lhe a imortalidade do espírito, os preceitos da Reencarnação e Lei do Carma, isso de modo direto e fácil, sem exigir qualquer abstenção. 

Ademais, tanto o Budismo como o Espiritismo, tentam libertar o homem de suas algemas carnais, porém, cada uma dessas doutrinas opera de conformidade com as atividades, temperamentos e psicologia do cidadão oriental e do ocidental.

Buda servia-se de comparações para ensinar sua doutrina, lembrando bastante a natureza poética de Jesus e suas parábolas. O Espiritismo, no entanto, profundamente eletivo à mente ocidental, manifesta os seus ensinamentos diretamente e sem a poesia ou o simbolismo que requerem demoradas meditações. 

É doutrina de esclarecimento imperativo e próprio para a época atual, em que não sobeja tempo para as longas contemplatividades próprias da escolástica oriental. 

O espírita se ajusta corretamente ao homem apressado, ativo e onerado no turbilhão incessante da vida moderna, mas pronto a servir ao próximo e a meditar também sobre a vida espiritual.


PERGUNTA: Gostaríamos de mais alguns exemplos comparativos entre os ensinamentos do Budismo e o método direto do Espiritismo, em nossa época.

RAMATÍS: Buda e a doutrina espírita, na essência, dizem as mesmas coisas, porém, de modo diferente; o primeiro dirige-se à mente oriental, poética e mística, a partir de 600 anos antes de Cristo, quando inicio sua missão libertadora; o Espiritismo dirige-se, particularmente, ao cidadão ocidental do século XX, cheio de dúvidas ou interpretações equívocas.

O budista ainda pode alegar falta de treino meditativo para interpretar, a rigor, certas máximas budistas; mas o espírita assimila o ensinamento que é acessível tanto à criança como ao velho, ao analfabeto como ao sábio! 

Na época da vivência de Buda e no tempo de Jesus, o conhecimento do mundo oculto não podia ser transmitido ao povo de modo "ex-abrupto", pois só alimentaria a superstição, o temor e o fanatismo. 

Daí, a peculiaridade das máximas budistas e das parábolas de Jesus, que velavam à massa comum certa parte do ensinamento transcendental. 

Por isso, ainda hoje os exegetas bíblicos discutem o sentido da parábola em que Jesus fez secar a figueira, porque ele traria a guerra e não a paz ou pretendem que tenha chamado o Templo de Jerusalém (um matadouro de aves e animais), de "casa de Deus"!

Obviamente, o Espiritismo não pretende superar o Budismo, mas em face de grande disparidade de condições evolutivas, realizações científicas e descobertas técnicas, domínio do mundo oculto e demais avanços do homem atual, a doutrina espírita é mais própria para as massas populares, enquanto o budismo requer mentes e costumes mais eletivos à meditação. 

No ensino budista, comumente, o discípulo deve tirar suas próprias ilações, após ouvir o conceito doutrinário, enquanto no esclarecimento espírita o ensino é direto e taxativo!

Dizia Buda: "Quem renuncia aos desejos se torna um brâmane", isto é, só depois que o discípulo buscava conhecer o que era um brâmane, então assimilava o ensinamento, por saber que o "brâmane era aquele que não se reencarna mais e que atinge o Nirvana, região equivalente ao céu do Catolicismo. 

No entanto, na exposição do mesmo conceito, o Espiritismo é rápido, prático, direto e impressivo, explicando: "liberta-te da carne e serás um anjo". 

Buda diz: "Quem injuria o homem virtuoso é como quem cospe contra o vento". E a doutrina de Kardec, no seu esclarecimento simples, indica a mesma coisa no seguinte:

"Quem injuria o próximo será injuriado." A poética e simbólica composição doutrinária de Buda diz outro ensinamento: 

"As coisas brotam do coração e o coração as dispõe; quem fala ou age com mau coração, a dor o acompanha como o pé do animal que o arrasta; quem fala ou age com coração, a felicidade o acompanha como a própria sombra". 

O Espiritismo, maravilha de simplificação para todos os homens, explica sem rodeios poéticos ao traduzir o mesmo conceito acima, expondo: "O homem colhe no presente ou no futuro os efeitos felizes ou desventurados das causas boas ou más do passado." 

Buda, expondo outro ensino de sua doutrina, assim se dirige à mente oriental: "Se tu pedires que a margem oposta do rio venha a ti, ela virá? 

Não! Tu é que tens de atravessar o rio para ir buscá-la." Segundo as pegadas de Jesus, e sob o mesmo tema, o Espiritismo é unânime em esclarecer que, sem esforço, o homem nada alcança; e por isso, apenas diz "Buscai e achareis.



PERGUNTA: Desde que na última encarnação fostes indochinês, qual era a doutrina que professáveis na vida carnal?

RAMATÍS: Era o Budismo, porém, devotávamo-nos principalmente à sua forma iniciática, ao espírito da doutrina, despida de quaisquer símbolos, alegorias ou sugestões indiretas, tal como hoje, muitos espiritualistas modernos sabem distinguir no Evangelho de Jesus o "espírito que vivifica e a letra que mata". 

Ademais, além do aspecto contemplativo de certas normas budistas, desenvolvíamos os poderes psíquicos e latentes na alma através de práticas esotéricas. 

O magnetismo, a psicometria, levitação, voz direta, radiestesia, materialização e psicografia já eram do conhecimento dos sacerdotes budistas dispersos pelas dezenas de templos-miniaturas espalhados pela terra indo-chinesa.

O Budismo, como o Espiritismo, também assenta suas bases na Lei do Carma e da Reencarnação, com a precípua finalidade de esclarecer os homens e livrá-los da superstição, mentira, lubricidade, avareza, medo, sofrimento, orgulho, ambição e de todos os desejos que escravizam o homem à matéria. 

O ideal moral pregado por Buda em nada fica devendo ao ideal cristão consumado no Evangelho do Cristo-Jesus, embora algumas vezes divirjam em sua forma de expressão.

Buda foi um esclarecido, entidade fulgente e dominante no plano mental, hoje mais conhecido por plano búdico; sua doutrina é fonte de profunda beleza moral. 

Assim como Jesus impregnou o Cristianismo com a simplicidade e a doçura de sua vida santificada, o Budismo traz em sua fonte a humildade de um príncipe glorioso e poderoso, que trocou as vestes de seda e as pedras preciosas do corpo pela vestimenta de estamenha (2) e pelo bordão de peregrino.

(2) Estamenha: tecido grosseiro de lã.

No entanto, há que distinguir o Budismo, doutrina iniciática que se dirige diretamente ao coração do homem sem os ritos e a superstição, e o Budismo, religião organizada pela classe sacerdotal asfixiando a Verdade pura e simples, conforme o Catolicismo sacrificou a sua singeleza sob o peso das liturgias.


PERGUNTA: Porventura, os princípios simples do Espiritismo também conseguiriam influenciar os budistas religiosos ainda presos aos dogmas seculares?

RAMATÍS: Seria bem mais fácil o budista abandonar a pompa, a liturgia e o temor da classe sacerdotal para devotar-se ao Espiritismo com ardor e sinceridade, porque já cultua e conhece tanto a Lei do Carma como a Reencarnação, ao passo que o católico e o protestante são profundamente avessos a tais postulados.

Não obstante a diferença e o condicionamento de raças, climas, preconceitos e costumes, em todas as latitudes geográficas é sempre a mesma camada de espíritos apropriada à escola educativa terrena. 

Em verdade, em todos os povos ou raças, há tipos espirituais de graduações e sentimentos semelhantes. Tanto no Oriente, como no Ocidente, as religiões tiveram o seu inicio nos temas mais simples e puros, mas à medida que se sucediam os anos e os séculos, elas foram perdendo a sua simplicidade iniciática sufocadas pelas superstições, temores, liturgias, sistemas eclesiásticos e fanatismo sectaristas. 

Assim como o Catolicismo, com a pompa e o poder de sua organização sacerdotal interfere na política de vários países, o Budismo de hoje também sacrificou a pureza e simplicidade dos ensinamentos pregados por Buda à luz das estrelas, entre as veredas sombreadas das matas ou à porta das hospedarias.

Deste modo, no seio do Budismo também se mostram insatisfeitos milhares de budistas, cujo amadurecimento espiritual os toma mais conscientes de realidade da vida superior. 

Alguns também são religiosos tradicionalistas, por questão de família, de tolerância ou situações políticas, mas na intimidade da alma já perderam a fé nos postulados consagrados pelo mundo exterior, mas vazios da força angélica do inigualável Buda. 

São adeptos que vibrariam mais facilmente com o Espiritismo do que os próprios devotos católicos, protestantes e de outras seitas religiosas do Ocidente. 

Quando a doutrina espírita achegar-se a eles cavando a crosta das inutilidades pomposas e dogmas atrofiantes do Budismo, ser-lhes-á fácil aceitar e professar uma doutrina ocidental de profunda semelhança com as raízes fundamentais da Lei do Carma e da Reencarnação dos ensinos budistas. 

Ademais, devotar-se-ão, satisfeitos, à disciplina lógica e sensata da comunicação com os mortos sem a proverbial obstrução de superstições e temores, que transformam parentes falecidos em seres irreais  moradores de um mundo caricato!

Namastê / Laroyê

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