16.11.25

ESPIRITISMO E RELIGIÃO

PERGUNTA: Inúmeros espiritualistas e religiosos acham impertinência e presunção o fato de os espíritas apregoarem que o Espiritismo é o próprio Cristianismo redivivo. Que dizeis?

RAMATÍS: Evidentemente, isso é possível quando exista semelhança de ação entre ambos. 

O Cristianismo era doutrina desprovida de pompas, complexidades, dogmas, ritos e compreensível por todas as criaturas, pescadores, campônios, mulheres, crianças, velhos, sacerdotes ou doutores. 

Revelava os atributos naturais do espírito imortal, estimulando o homem para o culto das virtudes superiores e balsamizando os efeitos do pecado.

O Cristianismo era movimento sem hierarquia, cuja força e pureza doutrinárias dispensavam intérpretes especiais, pois tocava diretamente na alma e no coração das criaturas. 

Os homens reuniam-se sob a carícia do Sol amigo, bafejados pela brisa deliciosa da Galiléia, enquanto escutavam Jesus falar-lhes das cousas ternas, das esperanças do “reino de Deus” e do prazer sublime de ajudar o próximo

Tudo era simples, sem preconceitos, sem exigências filosóficas ou consultas complexas. Quando Jesus pregava, os bens mais valiosos do mundo material eram superados pela indescritível paz de espírito e serenidade que envolviam seus discípulos e ouvintes.

Em consequência, o Espiritismo é doutrina profundamente eletiva ao Cristianismo porque também dispensa práticas iniciáticas, dogmas, compromissos, rituais, oferendas, símbolos, insígnias e sacerdócio organizado. 

O Cristo-Jesus manifesta-se em qualquer lugar e a qualquer hora, à luz do dia ou da noite, em ambiente fechado ou aberto, nos campos ou nas cidades, inspirando os homens que o evocarem para realizar cousas sublimes.

Assim, como fariam os antigos cristãos, os espíritas também cuidam da realidade espiritual, diretamente, em reuniões simples, sem atavios, cerimônias ou idolatrias.


PERGUNTA: Mas um dos fundamentos do Espiritismo é comprovar, pela mediunidade, a imortalidade da alma. Não é assim?

RAMATÍS: Não basta só provar a existência da alma pela fenomenologia mediúnica, mas também é preciso desenvolver no espírito humano as qualidades evangélicas apregoadas por Jesus. 

Os espíritas sabem que é mais sensato e proveitoso exercitar nas criaturas a paz, ternura, humildade e o amor, que convertem à angelitude, do que apenas surpreendê-las com os fenômenos transitórios referentes à imortalidade.

Sem dúvida é muito importante para os espíritas comprovarem a sua sobrevivência após a morte física; mas ainda é mais valiosa a transformação moral e libertação dos instintos animais, que livram o ser da roda indesejável das encarnações expiatórias.

Indubitavelmente, é grande tolice o homem saber da existência do Paraíso e nada fazer para habitá-lo! 

O fenômeno psíquico demonstra características da revelação, mas não é processo fundamental para melhorar a evolução da alma.

O Espiritismo afiniza-se bastante com o Cristianismo, principalmente, pela mesma finalidade doutrinária de transformar o homem animalizado em cidadão angélico. 

Os fenômenos espetaculares, embora impressionem, não transformam sentimentos maus em virtudes sublimes, nem as paixões violentas em afagos da alma. 

Isso só é possível através da renovação moral no santuário silencioso do ser!

Aliás, Jesus, o mais elevado instrutor da Terra, só prometeu fenômenos aos homens, depois de eles alcançarem a redenção espiritual. 

Em verdade, o homem evangelizado também é um fenômeno. Por isso, o Amado Mestre não fez milagres derrogando as leis do mundo, pois Ele era, acima de tudo, um sublime instrutor de almas! 

Jamais se prestou à condição de prestidigitador promovendo espetáculos incomuns às multidões supersticiosas.


PERGUNTA: O Espiritismo, porventura, também é uma religião?

RAMATÍS: Depende do que realmente considerais religião, pois o Espiritismo não é mais uma seita que se particularize entre os diversos tipos de associações religiosas do mundo. 

Contudo, é “Religião”, na acepção do vocábulo “re-ligare”, processo ou meio de religar o espírito do homem à Consciência Cósmica de Deus. 

Sua função é dinamizar o “quantum” energético da centelha espiritual que domina em sua intimidade, fazendo-a aflorar cada vez mais à superfície da transitória personalidade humana; e assim consolidando a individualidade eterna do ser consciente de existir no Universo! 

Não é movimento destinado a reunir homens e incentivá-los à adoração de Deus sob um aspecto particularizado; nem se distingue por cerimônias em templos, dogmas, compromissos ou posturas peculiares a estatutos religiosos. 

É norma de vida do Espírito encarnado, induzindo-o a libertar-se, o mais cedo possível, da animalidade que o prende aos ciclos encarnatórios nos mundos planetários. 

Mas tudo isso será exercido com um "estado" de espírito no homem, sem limitações, preconceitos, obrigações ou exigências aos seus fiéis e adeptos. 

O esforço da criatura em "religar-se" o mais cedo possível com o Pai, deve ser espontâneo ou voluntário. 

Jamais obrigatoriamente, pois isso lhe tiraria o mérito da ação.

As cerimônias, os ritos, os símbolos, as distinções hierárquicas que tanto impressionam os sentidos humanos, são recursos ou exterioridades, que podem identificar conjuntos de crentes praticando cultos religiosos simpáticos entre si, mas não provam estar presente o verdadeiro sentido da Religião. 

Em consequência, Religião é o esforço que a criatura empreende no sentido de maior sintonia com Deus, o que é perfeitamente compatível com o Espiritismo, cuja doutrina não pretende competir com as seitas religiosas do mundo, mas apenas esclarecer os homens independentemente de quaisquer compromissos devocionais.

A verdadeira religião não possui barreiras, não tem cor local ou limitações doutrinárias, pois abrange todas as criaturas que vivem dentro de uma norma ou esquema semelhante de entendimento espiritual. 

É uma atividade legitimamente espiritual, que universaliza o Espírito, aprimora a mente e sensibiliza o coração' através de maior compreensão das Leis da Vida e de Deus!


PERGUNTA: Dizeis que a verdadeira religião vem do vocábulo "religare" e tem por função precípua "religar" o espírito do homem ao Espírito de Deus. 

Porventura, nós não somos "ligados" com Deus mediante os atributos que Dele possuímos, embora em grau infinitamente pequeno?

RAMATÍS: Sem dúvida, todas as criaturas constituem-se de centelhas emanadas de uma só Fonte Divina; e, portanto, mantêm-se indestrutivelmente ligadas com Deus. 

No entanto, ser a substância de algo é uma coisa e ter a consciência disso é outra!

Todos os homens estão ligados a Deus porque sua contextura fundamental é emanação Dele; porém, como o espírito surge ignorante e inconsciente, embora esteja ligado ao Pai que o criou, todo o esforço que ele executa no sentido de ampliar sua consciência e abranger maior amplitude da Consciência Cósmica de Deus, é um processo "religioso" de "religar-se"! 

O espírito já está ligado a Deus pela circunstância de ser criação Dele, mas depois procura a sua "religação" pelo desenvolvimento da consciência.

Deste modo, o Espiritismo também é uma Religião, como é todo o movimento destinado a desenvolver a consciência espiritual do ser. 

Mas nada tem a ver com as organizações sectaristas religiosas, que possuem métodos exclusivos e dogmáticos para os seus cultos e adorações ao Pai. 

Através do Espiritismo o homem aprende que esse "religamento" ao Criador deverá se efetuar através de obras, feitos e auto-evangelização, em vez de sua escravidão a credos, crenças, adorações, compromissos, cerimônias ou dogmas!


PERGUNTA: Considerais, então, que o Espiritismo é realmente o Cristianismo Redivivo?

RAMATÍS: O Espiritismo é a revivência do Cristianismo, tanto pela sua doutrina moral quanto à elevação do homem, como por sua mensagem consoladora prometida por Jesus. 

Ademais, Allan Kardec levantou corajosamente a ponta do "Véu de Ísis", popularizou os ensinamentos e as práticas iniciáticas, que antigamente só eram permissíveis nas iniciações ocultas aos discípulos eruditos. 

As antigas práticas mediúnicas e complexas desses santuários foram simplificadas em preceitos claros e lógicos, através de obras didáticas aos médiuns estudiosos e interessados no seu progresso espiritual sensato e fora dos perigos do empirismo improdutivo. 

As vésperas do "Terceiro Milênio" ou do "Milênio do Mentalismo", a doutrina espírita é um curso espiritual valioso para o homem libertar-se dos dogmas opressivos, das práticas supersticiosas, das descrenças infantis e ampliar sua consciência para a realidade do "Eu Superior".

Através da singeleza do Espiritismo, o homem comum ficou ciente dos valores espirituais adormecidos em sua própria alma; e já pode orientar-se para uma compostura moral superior no mundo físico até conseguir o seu passaporte para o ingresso definitivo no seio da humanidade angélica. 

Ademais, os postulados espíritas não devem ser confundidos com os princípios de seitas exclusivistas, ou isolacionistas. 

Realmente, eles interpretam à luz do século XX os próprios ensinamentos do Cristianismo de Jesus, como o fermento divino ativando a vivência do meio onde atua. 

Não compete ao Espiritismo atear contendas religiosas ou exacerbar os fanatismos humanos; também não lhe cumpre qualquer defensiva ortodoxa ou separativista nas competições religiosas do mundo. 

É movimento filosófico espiritual de disciplina científica mas, acima de tudo, orientação moral da alma subvertida na senda das ilusões do mundo carnal!


PERGUNTA: Por que as religiões não puderam cumprir sua missão de esclarecimento sobre os homens?

RAMATÍS: As religiões, como o Catolicismo, Mosaísmo, Hinduísmo, Confucionismo, Protestantismo, Budismo e outros movimentos hierárquicos, similares, perderam o contato iniciático com a pureza da fonte em que se inspiraram.

Comumente, aliaram-se aos poderes do mundo de César, tisnando a simplicidade iniciática no jogo perigoso das especulações políticas e na posse dos bens temporais. 

Atualmente, inúmeros sacerdotes católicos, que haviam fugido do mundo profano para a segregação dos conventos, mosteiros ou seminários, depois de liberados desse isolamento, eis que retomam à esfera pública para conquistar uma cadeira de deputado, senador ou vereador.

Assim, de principio, eles renunciam ao mundo profano e aos deveres do cidadão comum, recolhendo-se voluntariamente à vida monástica; mais tarde, voltam a competir com o poder temporal público num desmentido à sua anterior renúncia. 

Eleitos para divulgarem os bens do Cristo, depois competem para conquistar as gloríolas políticas da vida efêmera do mundo material!

Essas disposições contraditórias de renúncia e competição profanas, próprias dos lideres de algumas religiões do mundo, terminam lançando a desconfiança nos próprios fiéis e enfraquecendo-lhes o interesse espiritual. 

Antigamente, os sacerdotes eram considerados os procuradores da Divindade, sendo-lhes vedados os negócios subalternos da existência profana. 

Significavam os emissários de um mundo superior e liberto das inferioridades e paixões próprias da vida terrena, sem rebaixar-se aos mesmos desejos, objetivos e cobiças comuns. 

No entanto, a religião falhou redondamente na sua missão salvacionista e educativa do homem, porque além das contrafações dos seus representantes, ainda pontifica as mesmas fantasias bíblicas, nega a reencarnação e impõe dogmas que lançam a desconfiança ao mais inculto ginasiano! (1)

(1) Aliás, no Brasil é muito comum as obras escritas por padres solteiros, que pontificam expondo regras de como criar filhos, viver conjugalmente, atender aos problemas nevrálgicos do sexo, ou perigos do divórcio. Paradoxalmente, enquanto no seio das igrejas pregam as mais ingênuas fantasias decalca das da Bíblia, arvoram-se em sábios nos problemas mais severos da humanidade.

Enquanto os satélites rodam em torno da Terra, os submarinos atômicos rompem as calotas polares e a Ciência substitui rins ou corações combalidos, os sacerdotes católicos e pastores protestantes ainda pregam seriamente a subida de Elias ao céu, num carro de fogo, de Habacuc pelos cabelos, enquanto Jesus e Maria ascensionaram em corpo físico.


PERGUNTA: Considerando-se que as religiões de diversos povos falharam na missão de esclarecimento espiritual da humanidade, em virtude de sua adesão aos poderes políticos e temporais do mundo profano, porventura isso também não poderá acontecer ao Espiritismo?

RAMATÍS: 
Sem dúvida, nem todos os espíritas e médiuns cumprem rigorosamente os princípios superiores da doutrina, pois alguns também se desorientam devotando-se ao mundo de César e olvidando o mundo do Cristo!

No entanto, a segurança do Espiritismo fundamenta-se na sua libertação radical dos cultos externos, dogmas, compromissos, símbolos, rituais, adorações ou cerimônias complexas, que satisfazem os crentes quanto à sua obrigação externa, mas não lhes transforma o espírito. 

Aliás, Allan Kardec pregou mui sensatamente que "conhece-se o espírita pela sua transformação moral incessante". 

Os adeptos das igrejas do culto externo precisam de sacerdotes, pastores, lideres, adeptos, mestres, swamis, ou rabinos, que lhes proporcionam os meios de cumprirem suas obrigações religiosas habituais.

Essas igrejas socorrem-se dos recursos mais exóticos e pitorescos do mundo profano, que deforma a sua significação espiritual para atrair as multidões ainda impressionáveis pelos sentidos físicos. 

São procissões e encontros de imagens dramatizadas, introdução de ritmos modernos nos ofícios religiosos, que aumentam a quantidade de crentes, mas também sacrifica bastante o grau de qualidade espiritual! 

culto externo requer, também, uma espécie de propaganda dirigida, com "slogans" sugestivos e recursos da radiofonia, televisão, teatro e cinema, à semelhança dos recursos profanos. 

E os fiéis então se julgam dispensados de outras obrigações íntimas para com a sua igreja, porque frequentam o santuário e atendem aos sacerdotes em todas as festividades e conclamações cerimoniais dos dias santificados. 

Em consequência, grande parte do ensinamento do "homem interno" foi sacrificado pela cerimônia exterior, e os católicos, principalmente, consideram-se quites com os seus deveres religiosos tão-somente pela sua disciplinada frequência ao templo!

Mas a doutrina espírita, cuja principal atividade é o "culto interno do espírito", não pode admitir qualquer abastardamento, mistificação ou contradição moral de seus adeptos, porque isso, os coloca à margem pelos próprios simpatizantes, discípulos ou orientadores.

Ninguém mais confia nos empreendimentos espiritistas dos espíritas facciosos e os deixam a sós com suas imprudências censuráveis, porque não é a cerimônia, a liturgia, o ritual ou a frequência incessante à igreja o motivo essencial da doutrina, mas, acima de tudo, a autenticidade do critério moral e a atividade escrupulosa. 

No seio do Espiritismo codificado, os negociadores, mistificadores ou vaidosos, tresmalham-se entre os espíritos sadios. 

Eles então se constituem em movimentos à parte, anômalos e excêntricos, que não inspiram confiança e não gozam de chancela espiritista. 

Ficam na marginalidade, malgrado se esforcem para corresponder às exigências salutares da maioria.


PERGUNTA: 
Porventura, não se poderia julgar que o Espiritismo, sendo movimento de sentido universalista, às vezes também censura outros credos, embora não seja uma seita a competir com as demais religiões?

RAMATÍS: A verdade é simples. Cada religião ou doutrina espiritualista
viceja e atende a um determinado coeficiente de adeptos durante certo tempo, até lhes saturar o entendimento. 

O Cristianismo substituiu o Judaísmo e o Catolicismo é o Cristianismo já deformado em sua fórmula iniciática, simples e direta ao espírito do homem! 

O Espiritismo, no entanto, é um novo esforço empreendido pelo Alto no sentido de recuperar a simplicidade do Cristianismo sem o atravancamento de dogmas, liturgias e cerimoniais fatigantes.

Em consequência, assim como o Cristianismo superou o Mosaísmo e o Protestantismo protestou contra o Catolicismo na sua exuberância formalística e cerimonial luxuoso, o Espiritismo vem divulgar a imortalidade e os deveres da alma, dispensando as fórmulas arcaicas e improdutivas das religiões sectárias. 

É movimento conciliador da necessidade espiritual e mental do homem do século XX, em sintonia com o avanço apressado da Ciência humana no campo das energias do próprio mundo oculto. 

Alicerçado no Evangelho de Jesus para orientar o homem na sua conduta moral e na Ciência que projeta e garante a estabilidade e o progresso da existência material, o Espiritismo ainda subsistirá por muitos milênios, embora se possa corrigir alguns postulados futuramente inadequados ou obsoletos às novas formas de vida! 

Dispensando a roupagem misteriosa dos símbolos, dogmas e fantasias próprias de várias religiões do mundo, a doutrina espírita também evita o prosaísmo de mobilizar os recursos transitórios da matéria, para valorizar as qualidades eternas do Espírito imortal!

Aliás, o Espiritismo, como doutrina universalista, não pretende guerrear a Igreja Católica e demais religiões, que ainda cumprem a sua missão digna junto à humanidade invigilante. 

No entanto é obrigado a esclarecer aos seus adeptos de que não cultua dogmas, superstições pagãs, fantasias bíblicas ou liturgias e pompa. 

O seu movimento admite e conjuga-se a todos os empreendimentos da Ciência Acadêmica e descobertas de novos valores progressistas do mundo. 

Deste modo, recusa-se a acrescentar aos seus postulados doutrinários a bagagem das crenças supersticiosas do passado, pulverizadas pelas comprovações científicas do vosso mundo atual.


PERGUNTA: 
E qual seria a função de religiosidade do Espiritismo, em nossa época?

RAMATÍS: Os mentores da Terra, na atualidade, buscam entre os "muitos chamados e poucos escolhidos", os colaboradores ativos e corajosos, que possam atender ao serviço religioso do Cristo à luz do dia, em favor da humanidade. 

Porém, essa tarefa inadiável não pode ser exercida só em "momentos religiosos" dentro das igrejas ou sob "compromissos iniciáticos" nas confrarias esotéricas; nem apenas em "momentos de meditação", nas lojas teosóficas, nas disciplinas ou pesquisas dos agrupamentos rosacruzes, ou, ainda, nas reuniões fraternas dos esoteristas.

O mundo conturbado exige, cada vez mais, que os sadios de espírito e entendidos da imortalidade cooperem incessantemente em todos os momentos da existência humana e principalmente fora dos templos e das confrarias iniciáticas. 

Os verdadeiros servidores do próximo hoje dão tudo o que possuem de talento experiência e realização espiritual na vida em comum com os demais irmãos de jornada terrena. 

Eis por que o médium, hoje, é uma figura em constante atividade, a mover-se por todos os cantos da cidade a fim de consolar, aliviar dores ou solucionar problemas angustiosos no seio de quaisquer famílias.

Indubitavelmente, ele terá de viver existência regrada, conduta sadia e impecável no contato com os demais seres, pois embora seja um cidadão comum do mundo, é, também, o sacerdote sem paramentos, que oficia a religião do Amor do Cristo!


Namastê / Laroyê

9.11.25

O ESPIRITISMO E O EVANGELHO

Em "A Missão do Espiritismo" pela mediunidade de 'Hercílio Maes'; analisemos as informações trazidas pelo mestre Ramatis sobre o Evangelho do Cristo.


PERGUNTA:
Por que Allan Kardec fundamentou a doutrina espírita sobre o Evangelho de Jesus, quando dizia tratar-se de doutrina filosófica e científica?

RAMATÍS: O Espiritismo é doutrina completamente liberta de quaisquer ritos, devoções, hierarquias, símbolos e idolatrias, pois Allan Kardec preocupou-se em evitar que os postulados da codificação pudessem se abastardar, no futuro, devido à divergência de interpretações pessoais. 

Os ensinamentos espíritas vão diretos ao entendimento do homem, sem o enigma dos dogmas peculiares das seitas religiosas. Tudo é claro e fácil; não há vocabulário iniciático, mistérios ou símbolos que exijam pesquisas demoradas e análise profunda para suas interpretações.

O codificador sempre considerou o Espiritismo como Religião, mas num sentido filosófico (e não de seita), cuja doutrina é de confraternização e comunhão de pensamentos sobre as próprias leis da Natureza. 

As reuniões espíritas devem realizar-se com recolhimento e o devido respeito por ideais tão valiosos e sublimes, como crer em Deus, na imortalidade da alma, na retificação espiritual através da reencarnação, na ventura humana, na igualdade de justiça, na prática da caridade e no exercício incondicional do Bem.

"Ideias contidas no discurso de Allan Kardec, pronunciado na Sociedade Parisiense, em 1º de novembro de 1868".

Em consequência, o Espiritismo é realmente doutrina de “sentido religioso”, uma iniciativa sensata para “religar” a criatura ao Criador através do processo mais digno do Espírito imortal. 

Além de doutrina filosófica e afim à Ciência do mundo, também prega o culto religioso na sublime intimidade das criaturas para maior aproximação do Criador! 

Allan Kardec reconheceu que não havia Código Moral mais avançado e eletivo aos propósitos do Espiritismo do que o Evangelho de Jesus.


PERGUNTA: Quais foram os principais motivos que fizeram Allan Kardec preferir o Evangelho de Jesus para fundamentar a moral de sua doutrina?

RAMATÍS: Em primeiro lugar, porque os ensinamentos de Jesus, assim como os postulados espíritas, são simples e destituídos de fórmulas ou símbolos complicados.

Ademais, Jesus não exigia que os homens se tornassem santos ou heróis sob a influência imediata de suas palavras. 

Ele ensinava os predicados do Céu no seio da vida em comum, nas ruas, nas estradas, nos campos, nos lares ou à beira das praias! O Mestre preferiu conviver entre o povo aflito e sofredor e que pedia consolações, em vez de interessar-se pelos poderes políticos ou complicações religiosas do mundo. 

Suas máximas eram simples, compreensivas e fluíam diretamente para o coração dos homens, através de recomendações inesquecíveis como “Ama ao próximo como a ti mesmo”, “Faze aos outros o que queres que te façam”, “Quem se humilha será exaltado” ou “Cada um colhe conforme suas obras”.

Jamais outro Código Moral tão sublime poderia fundamentar o Espiritismo, cuja doutrina também é um modelo de simplicidade, lógica e libertação. 

A verdade é que nenhuma moral ensinada pelos espíritos poderia se comparar com a prédica evangélica que Jesus expôs aos terrícolas. 

Allan Kardec, mais uma vez, comprovou a sua elevada missão entre os homens quando escolheu o Evangelho de Jesus para orientar as atividades espíritas.


PERGUNTA: Os católicos e reformistas contestam o fato de o Espiritismo interpretar o Evangelho a seu modo, e apenas o consideram mais um competidor na discussão milenária das seitas religiosas sobre as atividades de Jesus!

RAMATÍS: Jamais a doutrina espírita pretende isolar-se na esfera dogmática religiosa de interpretação exclusiva do Evangelho de Jesus, nem usá-lo como garantia de pontos de vista pessoais. 

Aliás, o Espiritismo já se consagrou por cem anos de atividades doutrinárias e realizações benfeitoras, sem qualquer imposição religiosa ou conluios políticos com os poderes do mundo de César.

Também não segue os ensinamentos de Jesus apenas como dogmas ou princípios estáticos no tempo, mas os divulga entre os homens pela força dinâmica do que Jesus viveu do berço à cruz! 

É o Cristo vivo, cujo calvário e crucificação foram lições imorredouras de renúncia, perdão e amor aos homens! 

Espiritismo não discute nem faz interpolações pessoais do que Jesus “disse”, ou o que ele “teria dito”; basta-lhe o sacrifício de sua vida cumprindo integralmente todo o bem que ensinou aos homens.


PERGUNTA: 
Qual o sentido mais íntimo do Evangelho com a doutrina espírita?

RAMATÍS: Sem dúvida, o principal objetivo da doutrina espírita é a redenção dos espíritos através de uma realização consciente e contínua, sem aguardar o milagre da santidade instantânea. 

O espírita deve interessar-se profundamente pelo seu próprio aperfeiçoamento, independente de confiar somente nos ensinamentos dos mestres ou doutrinadores.

Não basta a convicção na imortalidade da alma, mas principalmente a conversão à moral superior do Cristo!

Em consequência, nenhum Código Moral ou Tratado do Espírito Imortal pode ser mais eletivo à educação e libertação do espírita, do que o Evangelho de Jesus, cujos ensinamentos são absolutamente desapegados de quaisquer mistérios ou complexidades.

Daí a sua afinidade com o Espiritismo, que também é destituído de liturgias, dogmas e "tabus".

Não se trata de um conjunto de preceitos para uso alheio, pois eles foram caldeados na vivência pessoal do seu próprio autor! 

Jesus não estabeleceu um culto ostensivo a Deus, nem pregou às multidões o poder e a outorga divina de sacerdotes, mas foi muito claro ao dizer: "Quem quiser salvar-se, pegue de sua cruz e siga-me!" 

Foi o convite direto e pessoal a cada homem em sua natureza física e capacidade espiritual!

Ademais, deu um toque divino em todas as situações e condições humanas infelizes, operando o milagre admirável de transformar angústias, fracassos e desesperos em forças vitais para o caminho do céu! 

Descerrou aos olhos dos homens uma nova era e transformou dores em bênçãos, vicissitudes em lições renovadoras, choros, sofrimentos e aflições em bem-aventuranças eternas! 

Em vez de menosprezar a vida física como um fardo indesejável ou aconselhar a fuga do mundo para a mística da adoração, ensinou o valor sacratíssimo do corpo carnal como instrumento necessário e imprescindível para o aperfeiçoamento da alma! 

Nenhum suspiro, nenhuma lágrima ou dor será perdida ante a magnanimidade do Senhor da Vida!

Evidentemente, há perfeita sintonia moral e espiritual em ambos os casos; Espiritismo e Evangelho! Ambos pedem a redenção humana e ambos valorizam a vida humana como ensejo educativo e não apenas condição expiatória ou apenas sofredora!


PERGUNTA: Como percebermos que a ação do Evangelho através do Espiritismo não se impregna das particularidades da própria doutrina espírita?

RAMATÍS: O principal papel do Espiritismo é o de revelar antecipadamente, aos homens de hoje, as condições superiores da vida futura. 

Apresenta, portanto, o esquema da ação humana do porvir com os postulados morais a serem admitidos hoje pelos homens.

Há de influir em todas as atividades, expondo roteiros sadios de vida superior; não como doutrina estática, de culto e sistema religioso particularizado, porém, vivência incondicional nas relações da vida em comum.

O Espiritismo, portanto, é lâmpada destinada a iluminar a humanidade; e o Evangelho é a Luz que o alimenta nesse desiderato superior. 

Mas não é o homem que deve aguardar a aproximação do Evangelho; porém, buscá-lo pelo exercício constante dos preceitos que ali estabelecem a norma da vida superior. 

O Evangelho é fonte criadora de homens incomuns; justos e não fortes, altruístas e não egoístas, humildes e não exaltados, ternos e não cruéis, pacíficos e não belicosos! 

Será o reino de homens santos ou de gigantes vencedores de suas próprias paixões, componentes de uma civilização de aristocracia espiritual, onde os brasões mais nobres não ostentam as armas da morte, mas trazem a insígnia da vida eterna e do Amor do Cristo!

Todos os problemas do mundo serão solucionados sob a lei aferidora do Evangelho, na vida fecunda e sublime de homens que se alimentam sob o amor fraterno do Divino Mestre!


PERGUNTA: Não basta o Evangelho por si, como um Código Moral superior para a humanidade terrícola? Ainda seria necessário o Espiritismo divulgá-lo através de suas atividades doutrinárias?

RAMATÍS: A doutrina espírita, pelo seu alto quilate moral de função libertadora, só pode ser intérprete de outra mensagem de maior valor, como é o Evangelho.

Sem culto externo, sem hierarquia sacerdotal e protegendo-se como doutrina universalista, é óbvio que lhe cabe disseminar entre os seus adeptos os ensinamentos do Mestre Jesus, escoimados das deturpações próprias dos homens, que costumam regular as atividades religiosas conforme seus interesses pessoais.



PERGUNTA: Mas há espíritas que sobrepõem o esclarecimento científico da doutrina antes do compungimento da pregação religiosa. Criticam a divulgação de um Evangelho excessivamente choroso, mas improdutivo! Que dizeis?

RAMATÍS: Realmente, há excesso de melodrama e de exortação lacrimosa de certos evangelizadores espíritas, sem proveito para a transformação espiritual positiva do homem. 

Evangelizar, na verdade, não é apenas exposição de conceitos e parábolas através de suspiros, palavras trêmulas e expressões compungidas, cousa mais própria das antigas tragédias gregas.

Há doutrinadores espíritas que se empolgam pelas próprias emoções, deslumbrados pelo efeito "pirotécnico" de sua oratória ao público. 

Aqui no Espaço, muitos sermonistas e pregadores famosos das mais variadas seitas religiosas vivem em estado de penúria, pois confundiram sua própria exaltação pessoal com a simplicidade e a magia eloquente do Evangelho! 

Do alto dos púlpitos, das tribunas, dos estrados de instituições religiosas ou espiritualistas, eles fascinaram, comoveram, impressionaram e hipnotizaram o público pela sua eloquência, memorização fabulosa e erudição incomuns do conhecimento do texto do Evangelho de Jesus!

Sem dúvida, exaltaram de modo altiloquente a grandiosidade, o poder e a força do Evangelho, em verdadeiros desafios de oratórias e criticas a adversários obstinados.

Encerravam suas prédicas e sermões sob a apoteose das multidões; o público sentia-se pigmeu diante de tais gigantes da palavra pródiga de metáforas, rendilhados e enfeites literários do mundo transitório, cuja altiloquência verbal exaltava e enaltecia a singela e tranquila palestra do Mestre Jesus.

Oradores incomuns, eles passaram pela Terra como meteoros fulgentes, trazendo na cauda o acervo de palavras e frases rebuscadas! 

No entanto, estavam ainda apegados à personalidade humana e bastante preocupados com o julgamento do público a respeito do seu talento e de sua arte. 

Muitas vezes sacrificavam a claridade e singeleza dos textos evangélicos, asfixiando-os sob a torrente de adjetivos brilhantes! As antologias do mundo ainda divulgam em páginas sedutoras o cântico oratório de alguns desses famosos oradores, destacando-lhes a erudição e o poder hipnótico da palavra. 

Há citações de personalidade absorvente, arte das filigranas e altiloquência incomum, mas pouco se diz do conteúdo libertador do Evangelho! 

Os ensinamentos do amoroso Jesus, então, lhes serviu de trampolim para firmar a gloríola humana.

Indubitavelmente, há razões para alguns espíritas científicos deplorarem o compungimento lacrimoso de certos evangelizadores, mais preocupados com a feição religiosa da doutrina e sacrificando o esclarecimento que dispensa a poesia, mas requer a atenção. 

Conforme conceituou o próprio Allan Kardec, o "Espiritismo será científico ou não sobreviverá"! Em consequência, é verdadeira tolice tentar-se reproduzir com os enfeites do mundo transitório, aquilo que Jesus disse de modo tão natural e simples, assim como as caixas de veludo não aumentam o valor das joias preciosas!

Não é preciso incutir, no público ouvinte, algo além das mensagens de redenção e esperança espiritual libertadora, que Jesus expôs de modo singelo, mas convincente, no seu admirável Evangelho. 

A propaganda eloquente não torna o diamante mais valioso, porque a sua valiosidade já é consagrada na escala dos metais preciosos. 

O Evangelho, como método de vida sublime e regra do mundo angélico, é de quilate tão superior, que a mais vasta erudição e eloquência humana jamais poderia acrescentar-lhe qualquer novo valor.

Ninguém se evangeliza prematuramente pelo toque galvanizante dos oradores incomuns, embora donos da palavra escorreita, poética e sedutora. 

É mais convincente a moral e os exemplos pessoais do orador que propaga o Evangelho, do que a sua erudição e eloquência sobre o público. 

Um gesto de irritação ou sarcasmo, palavras de crítica antifraterna ou desatenção, podem lançar a desconfiança sobre o orador mais famoso.

Porém, a benevolência, a exortação amiga e a palavra simples, o respeito e o bom julgamento, atraem e inspiram confiança no pior orador do mundo.

Auto-evangelização não se apregoa aos gritos estentóricos, teatralidades e altiloqüência das explosões emotivas! 

Que se pode acrescentar de mais valioso pelos recursos da erudição do mundo aos conceitos indestrutíveis e fáceis de se compreender, como o "Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo", ou "Fazei aos outros o que quereis que vos façam"? 

Ninguém pode acrescentar ou deslocar uma vírgula nessas sentenças de libertação espiritual, pois Jesus, o seu Autor, o mais sábio dos homens, as ensinava sem os gestos da oratória brilhante e superficial do mundo.


PERGUNTA: Ouvimos famoso orador sacro protestar, em veemente sermão, que Allan Kardec cometeu censurável sacrilégio ao conjugar o Evangelho de Jesus à doutrina espírita! Que dizeis?

RAMATÍS: Aliás, foi o próprio Kardec quem assegurou, num conceito definitivo, que "o Espiritismo não traz moral diferente da de Jesus". 

Isso implica em enorme responsabilidade ao codificador e seus adeptos espíritas, porquanto não é a doutrina espírita que estatui uma moral superior, mas desde o seu ponto de partida já se submete de modo incondicional aos preceitos morais evangélicos do Mestre Jesus! 

Em consequência, Kardec subordinou a pesquisa e o saber do espírita à precípua condição de sua moral orientada pelo próprio Cristo Jesus. 

Louvavelmente inspirado, ele compreendeu que não bastaria somente o conhecimento ou a cultura do mundo para se conseguir a metamorfose do espírito humano, porém isso dependeria fundamentalmente de sua iluminação moral!

Quando elaborou o "Evangelho Segundo o Espiritismo", era sua intenção esclarecer os espíritas mais propriamente quanto à substância moral do Evangelho de Jesus e menos quanto a uma interpretação compungida ou de exagerado misticismo. 

Kardec expôs os ensinamentos do Divino Mestre como um "Código Moral" para ser vivido fora de discussões e interpretações pessoais baseadas na frialdade da letra. 

Acima dos sofismas, da dialética discutível, da cronologia dos acontecimentos e dos aspectos psicológicos de raça ou credo, ele preocupou-se fundamentalmente com a força positiva e moral que os ensinos de Jesus deveriam exercer no homem! 

Em vez de adotar o Evangelho como repositório de "fé" ou "mística" para uso exclusivamente religioso, preferiu-o para orientar o homem na vida profana!

Jamais o codificador cometeu qualquer heresia, ao conjugar o Evangelho como disciplina moral dos espíritas, pois não destorceu nenhum preceito sob qualquer interpretação pessoal, não discutiu a configuração nem o maciço das fórmulas evangélicas.

Extraiu o espírito do ensinamento cristão para oferecê-lo limpidamente ao entendimento dos homens de boa vontade! 

Espírito sensato e humilde, Allan Kardec preferiu o jugo suave do Evangelho de Jesus para consolidar o "Código da Moral Espírita", em vez de compor um acervo de máximas ou preceitos morais brilhantes e selecionados pelo seu alto nível intelectual, mas provavelmente sem a força redentora e já consagrada pelo sacrifício messiânico do Mestre na cruz! 

O Evangelho era o intermediário do Alto, indiscutível pelos homens e estatuído para o bem da humanidade! 

Criticar o espírito do Evangelho seria a própria estigmatização de imoral! Ainda nesse caso, o codificador também rejeitou toda fonte religiosa e moral do espiritualismo do Oriente, para adjudicar ao Espiritismo somente a essência do Cristianismo divulgado pelos apóstolos e consolidada pelo sangue dos mártires cristãos.

Embora o Espiritismo assente suas bases na revelação exposta pelas filosofias do Oriente, Allan Kardec abandonou a ética dos Vedas, o conteúdo moral convincente de Buda, as regras disciplinadoras de Krishna, os preceitos severos de Zoroastro ou filosóficos de Confúcio, preferindo a singeleza dos ensinamentos vividos por Jesus e perfeitamente eletivos à simplicidade e clareza da doutrina espírita.


Namastê / Laroyê

2.11.25

O ESPIRITISMO E A PSICANÁLISE

Em "A Missão do Espiritismo" através do médium 'Hercílio Maes'; analisemos os falas de Ramatis sobre a Psicanálise.


PERGUNTA: Temos ouvido de alguns médicos que os fenômenos mediúnicos sob a égide do Espiritismo não passam de fatos exclusivos da esfera da “psicanálise” de Freud. Que dizeis?

RAMATÍS: Não há dúvida de que a maioria dos fenômenos mediúnicos se enquadram, em sua aparência, na psicologia individual e profunda do inconsciente, investigado por Sigmund Freud e generalizada sob o termo “Psicanálise”.

Mas é óbvio que as comunicações de espíritos desencarnados, embora guardem certas semelhanças com as manifestações assinaladas por Freud, não pertencem ao médium. 

Este é apenas um transmissor do psiquismo do espírito desencarnado. Em consequência, o espírito comunicante é que deveria ser psicanalisado e não o médium, simples intérprete da vontade alheia.


PERGUNTA: Quais os espíritos desencarnados que seriam passíveis de uma investigação ou pesquisa freudiana?

RAMATÍS: Sem dúvida, os espíritos sofredores, primários, desajustados ou perseguidores, que se comunicam nas sessões espíritas do tratamento espiritual, pois constituem farto material de identificação de recalques e demais tendências mórbidas freudianas.


PERGUNTA: Conforme preceitua a Psicanálise, quando esses complexos, tendências ou recalques mórbidos do inconsciente emergem à luz da consciência em vigília, através do método de Freud, o paciente livra-se da perturbação ou conflito psíquico. Não é assim?

RAMATÍS: Sim; pelo menos é assim que Freud propôs o seu método e lograva suas curas.


PERGUNTA: Desde que os espíritas aplicassem o mesmo método de investigação e terapêutica freudiana nos espíritos sofredores e enfermiços, que se comunicam pelos médiuns, isso não seria mais fácil para curá-los ou livrá-los das perturbações que ocorrem após a morte corporal?

RAMATÍS: O problema do espírito desencarnado é muitíssimo mais complexo e difícil de solução, se o compararmos com o mesmo método psicanalítico aplicado aos encarnados. 

Os homens enfermos da mente e passíveis de êxito na terapêutica freudiana são criaturas desajustadas ou complexadas com o “meio” ou existência em que vivem.

Após a correção mental e identificada a libido, a causa mórbida, a frustração enfermiça da infância ou juventude que os atormenta, os pacientes liberam-se de suas algemas ou estímulos inconscientes e perturbadores.

Depois de extinta no inconsciente a atividade da causa determinante de uma conduta indisciplinada, neurótica ou contraditória, a mente do enfermo passa a funcionar livre de impulsos incontroláveis ou direções indesejáveis. 

Isso melhora o seu contato com o ambiente e harmoniza suas relações com as pessoas do mundo, integrando-o numa existência normal livre de inibições ocultas, tornando mais afetivo e conciliador entre a família, amigos e estranhos.

Mas não adianta aplicar o método de investigação freudiana no espírito desencarnado e enfermo, que se manifesta através do médium, nem perquirir-lhe o inconsciente, exumando as raízes mórbidas de complexos e recalques culposos. 

Em verdade, as causas mórbidas não podem ser removidas do espírito desencarnado, porque elas estão ligadas ao mundo material na forma de crimes, calúnias, traições, rapinagens, perversidades, avarezas, luxúrias ou tirania! 

São dívidas ou “pecados” que praticou contra o próximo, e não produto de choques, conflitos ou desajustes da infância ou juventude, que depois passaram a ferir-lhe a mente desgovernada!

Não se trata de causas desconhecidas na vivência secreta do inconsciente, mas de acontecimentos positivos e degradantes, que foram estigmatizados na consciência sob a forma de remorsos, temores ou desesperos.

Em tal caso, o espírito sofredor não vive através dos médiuns uma condição contraditória e forjada por causas ignoradas no seu consciente; mas ele sofre os efeitos das mazelas praticadas com conhecimento de causa! 

O psicanalista poderia apenas identificar-lhe os quadros mórbidos, mas não poderia devolver o paciente para a vida física onde praticou os seus delitos! 

Ninguém poderá libertá-lo da lembrança dos atos censuráveis e conscientes que praticou no mundo material. Só através de novas existências se apagarão de sua memória esses efeitos daninhos. 

Aliás, também não seria possível livrá-la da região do astral inferior, onde se aloja todo delinquente espiritual, por força do seu magnetismo muito denso.

O espírito enfermo pode amenizar suas angústias e aflições pelo tratamento "evangélico" preceituado pelo Mestre Jesus, o médico das almas, enquanto será inócuo à cura pelo método freudiano.


PERGUNTA: Considerando que os espíritos, tanto encarnados como desencarnados, são entidades imortais que já viveram "outras vidas", isso não justifica o fato de também possuírem recalques, complexos ou tendências enfermiças passíveis do tratamento freudiano?

RAMATÍS: Atualmente os próprios psicanalistas e diversos psicólogos atenuaram bastante a cobertura da terminologia freudiana sobre a humanidade, pois até certo tempo seria muito difícil encontrar alguma criatura na Terra perfeitamente hígida de qualquer anomalia freudiana. 

O arsenal freudiano era imenso e possuía rótulos para todas as atitudes, atividades e composturas humanas. O mundo encheu-se de complexos, desde os mais ridículos até aos mais excêntricos.

Havia complexos de pobreza, de riqueza, de inferioridade, de superioridade, de glória, de derrota, de masculinidade, de feminilidade, de frustração, de castração, de Édipo ou de Eletra, atribuídos a efeitos causados pelos conflitos na infância. 

Muitos acontecimentos, impulsos e certas atividades que há milênios perturbam a humanidade na terminologia simplista dos "pecados" tradicionais e quando o homem luta contra sua própria organização espiritual, serviram de alimento a numerosas obras excêntricas baseadas na sistematização de Freud. 

A nova rotulagem médica matou fragorosamente as velhas "fobias" habituais da circulação humana; "claustrofobia" virou complexo de prisão e o medo da multidão enquadrado na "agorafobia", passou a fomentar o complexo de inferioridade! 

Aliás, seguindo o mesmo critério, nem o próprio Jesus, o mais sábio e equilibrado dos homens, escaparia da mania freudiana. O Divino Mestre seria também um doente recalcado, portador do "complexo messiânico", quiçá, produzido por alguma arrasadora frustração de comando, na infância!

Em consequência, e sob a luz de Freud, qualquer homem há de ter o seu complexozinho para ser exumado lá do inconsciente sob a perícia de sentencioso psicanalista. 

O recalque há de ser, pelo menos, proveniente de algum susto ante o grito intempestivo de um papagaio, da cena em que o progenitor enraivecido atirou um prato na progenitora tagarela, ou, talvez, a frustração na infância por não ter ganho a bicicleta ou a gaitinha, no Natal!


PERGUNTA: Porventura, os médiuns não possuem recalques ou complexos passíveis de um exame psicanalítico? Não é possível que confundam mediunidade com certos recalques ou complexos freudianos?

RAMATÍS:
Afora os exageros e as fantasias dos psicanalistas, Freud, realmente, identificou muitas causas mórbidas radicadas no subconsciente, aplicando uma técnica revolucionária de todos os métodos e estudos psicológicos anteriores. 

Sem dúvida, há médiuns de "mesa" ou de "terreiro", que requerem uma drenagem freudiana a fim de melhorarem o seu contato com o mundo psíquico e distinguirem a sua interferência anímica nas comunicações com os falecidos. 

Tanto na seara espírita, como nos terreiros de Umbanda, ainda pontificam criaturas neuróticas, esquizofrênicas, exaltadas, neurovegetativas e histéricas que em contato empobrecido com o Além-túmulo, ainda confundem seus próprios recalques, impulsos enfermiços, complexos e alucinações à guisa de manifestações de espíritos!

Não há dúvida de que o médium, em geral, veste nossas ideias com algo de sua natureza anímica, podendo deformar parte dos nossos pensamentos pela sua maneira de sentir e pensar! 

Evidentemente, uma boa garimpagem psicanalítica talvez poderia sanear a mente complicada de muitos médiuns, ajustando-os na sua função de intérpretes do Além.


PERGUNTA: Poderíeis dar-nos alguns exemplos mais concretos?

RAMATÍS: Há médiuns anímicos muito indisciplinados em suas emoções além de entontecidos pelo excesso de fantasia motivado pelas imagens que bailam na sua mente descontrolada. 

Quando histéricos, exaltados, neurovegetativos ou esquizofrênicos, transferem facilmente para a atividade mediúnica os fatos ou simpatias que mais os impressionaram na existência. 

Os grandes líderes, profetas, santos, escritores, artistas, governadores, ministros e demais personalidades que se destacam no cenário do mundo material exercem profunda impressão nos médiuns muito anímicos. 

Então eles substituem os seus próprios guias espirituais com os nomes mais em evidência na história religiosa ou literatura profana. 

Através de supostas comunicações mediúnicas do Além, os personagens exaltados nos romances de fundo histórico ou grandes vultos da ciência, ainda continuam a se manifestar com insistência em certos trabalhos espiríticos, copiando as mesmas características que há séculos deveriam ter possuído em vida.

Sob tais condições, então predominam as ideias fixas, os falsos messianismos, auto exaltações, recalques, fobias e sublimações enganosas. 

Embora esses médiuns sejam vítimas de sua própria exaltação psíquica, agindo sem má intenção, tornam-se improdutivos e até semeiam prejuízos por confundirem o sensato com o ridículo e o verdadeiro com o falso! 

Sem dúvida, o método de psicanálise freudiano poderia ajudar esses médiuns quanto à drenagem de suas próprias contradições e complexos levados à conta de mediunidade!


PERGUNTA: Qual é a diferença mais acentuada entre a psicanálise de Freud e o Espiritismo de Kardec?

RAMATÍS: Enquanto a Psicanálise limita-se a perquirir na intimidade humana as "emersões" do subconsciente, recalques, libido ou complexos que presume adquiridos numa só existência terrestre, o Espiritismo estuda a personalidade humana em área bem mais extensa, porque analisa e esclarece acontecimentos mórbidos característicos de outras vidas pregressas. 

Daí, a limitação de Freud, que investigando fatores mórbidos nos homens, apenas do berço ao túmulo de uma só existência, ignorou que a verdadeira individualidade do homem gerada no tempo e no espaço, remonta a alguns milênios. 

Inúmeros fenômenos enfermiços, cuja origem prendia-se a acontecimentos seculares, Freud os classificou na singeleza de uma existência terrena, ou seja, em alguns "minutos" de vida do espírito milenário. 

Acontecimentos mórbidos fixados na contextura imortal do perispírito foram analisados à conta de fatos e conflitos ocorridos na infância do paciente! 

Enquanto Freud procurava examinar a personalidade humana decorrida na precariedade de uma vida carnal, o Espiritismo remonta aos milênios no estudo do espírito imortal!


PERGUNTA: Porventura, a fonte de investigação ou exumação de Freud, não era o subconsciente, e que os espíritas também consideram o repositório de vidas passadas? Em consequência, ao examinar certas origens mórbidas, ele também estaria investigando o passado milenário do espírito. Não é assim?

RAMATÍS: Sem dúvida, o subconsciente é o "porão" dos desejos, impulsos, emoções ou estímulos, que ali são guardados após o "confere" do consciente. 

É uma espécie de "guarda-roupa" da memória instintiva em que o espírito costuma arquivar tudo aquilo que o impressiona e domina. 

A herança dos instintos animais também se fixa nesse "porão" da individualidade humana, agindo na forma de automatismos que podem operar mesmo sem a aprovação da consciência. 

O homem ainda nutre e repara os prejuízos do seu edifício celular sem necessidade de cogitar disso conscientemente, porque o seu subconsciente trata do assunto de modo satisfatório, esclarecido pela experiência milenária.

Mas Sigismundo Freud equivocou-se, quando confundiu as aquisições mentais e emotivas do espírito humano através de várias encarnações na Terra, como acontecimentos oriundos de uma só existência humana. 

Apesar da sua terminologia brilhante, pesquisa sincera e obstinada, inclusive suas concepções da libido como desejo e força oriunda do instinto sexual, ou "instinto vital", segundo Jung, ele apenas investigou um fragmento do espírito imortal. 

Suas teorias impressionantes para os doutos da época, enfraqueceram em sua vitalidade científica porque ele desconhecia a reencarnação do espírito nas vidas sucessivas. 

Ademais, Freud, como diversos outros pesquisadores, ignorava que a maioria dos distúrbios nervosos, mentais ou emotivos radicavam-se fundamentalmente no perispírito preexistente e sobrevivente à morte do corpo físico.

Inúmeras psicoses do sexo, impulsos delinquentes, condutas excêntricas ou extravagantes, nada mais são do que produtos do impacto "pré-reencarnatório" do espírito naufragado no vórtice das paixões e dos instintos inferiores em vidas pregressas. 

Muitos complexos de inferioridade, de Édipo ou de Eletra, assinalados pelos "experts" da psicanálise, são de projeções mórbidas do pretérito, e não reflexos da infância humana! 

Há frustrações seculares vibrando na contextura delicada do perispírito do homem, que jamais poderão ser curadas pela terapêutica de Freud fundamentada em uma só vida carnal! 

São acontecimentos que traumatizaram uma existência inteira no passado, cujos estímulos mórbidos ainda centuplicaram-se na vivência do espírito desencarnado e sob intenso desespero, no Além-túmulo.

Os psicanalistas não poderão libertar seus pacientes de recalques ou, complexos, cuja origem se perde na trama secular ou milenária das, encarnações pregressas! 

São distúrbios gerados pelo ódio, egoísmo, orgulho, pela ambição, crueldade, vingança ou cobiça! 

Em tais casos, os postulados brilhantes e sugestivos de Freud são inócuos para a solução de problemas espirituais, sensíveis unicamente à medicação do Evangelho do Cristo! 

Jamais, os sentimentos e atos-pecaminosos produzidos pelo espírito em suas vidas sucessivas, podem lograr solução satisfatória na pesquisa de acontecimentos ocorridos na infância do homem, situados no prazo de uma só existência carnal.


PERGUNTA: Gostaríamos de entender melhor esse assunto!

RAMATÍS: O Espírito reencarnado sofre o assédio incessante dos estímulos enfermiços das existências anteriores. 

Há criminosos que ainda guardam no recôndito da memória perispiritual a cena do crime infamante; caluniadores de ontem vivem assustados temendo a descoberta de suas violências passadas; tiranos trafegam desesperados pelas ruas das cidades, fugindo inconscientemente dos gritos de suas vítimas seculares. 

Há espíritos que lutam apavorados contra os estímulos suicidas de vidas pregressas; mulheres tentam a santidade ainda sentindo nos lábios o gosto amargo do lodo da prostituição; homens de talento vagueiam a esmo acicatados pelas imagens torpes da literatura fescenina e libidinosa que infiltraram outrora na mente da juventude; criaturas aparentemente sadias, empalidecem e tremem no cenário da igreja que conspurcaram no passado ou desmaiam ante os cepos sangrentos dos açougues, revivendo na memória perispiritual a sua vivência de "carrasco" no passado!

Jamais Freud e seus seguidores poderiam identificar a libido desses seres, recorrendo sumariamente aos acontecimentos da infância e dos conflitos emotivos dos seus progenitores. 

Terão de penetrar no passado reencarnatório da alma eterna! Então, poderão reajustar suas classificações mórbidas e ampliar seu repertório freudiano, anotando, indiscutivelmente, os "complexos" pré reencarnatórios, tais como complexos de suicídio, calúnia, ódio, tirania, crueldade, perversidade, luxúria ou de rapina.

Por isso, a terapêutica espírita é muitíssimo superior à análise freudiana, porque além de remontar às causas' "pré-encarnatórias", ainda oferece o medicamento eficiente do Evangelho para a higienização do espírito eterno. 

A psicanálise convence o paciente de que determinadas perturbações são provenientes de conflitos e acontecimentos vividos na infância. 

O Espiritismo, no entanto, aponta a delinquência do espírito, no passado, mas lhe oferece a oportunidade de reajuste pela submissão ao processo cármico das vidas sucessivas! 

O espírito é classificado como devedor, mas também recebe o endosso espiritual para liquidar seu débito conforme sua capacidade e entendimento!


PERGUNTA: Sob vossa opinião, o método desenvolvido por Freud na pesquisa da mente humana trouxe algum benefício à humanidade?

RAMATÍS: Incontestavelmente! Sigismundo Freud aproximou-se da verdadeira luta espiritual do ser na escalonada e classificou inúmeros problemas do espírito ainda preso nos liames da vida inferior! 

No entanto, não alcançou a solução, porque como já dissemos, atribuiu, restringiu a uma só vida, recalques ou taras que vinham se complicando há séculos. 

Suas palavras eruditas e alentadas exposições como legista das enfermidades mentais, foram motivo de satisfação para muitos curiosos e exigentes escravos da terminologia acadêmica. 

No entanto, não puderam oferecer o remédio positivo, que é fruto do amor e do entendimento espiritual!

No entanto, hoje não se ignora que a mente humana pode ser clinicada e cuidada tanto quanto o corpo físico! Embora vos pareça fantasia, a cirurgia do corpo evolui para a cirurgia do espírito; no futuro, caberá ao médico operar determinada afecção mental, como se faz hoje na rudeza de eliminar um quisto ou apêndice! 

As excrescências e deformações que se produzem em torno da alma, têm suas raízes mórbidas fixadas no passado, assim como o câncer emite suas ramificações nas entranhas do organismo carnal!

Em consequência, mal grado a frieza e a indiferença espiritual da teoria de Freud, não podemos olvidar que ele deu início ao verdadeiro processo de investigação e cirurgia da mente enfermiça, assinalando aos cientistas modernos o processo e o fundamento de inúmeras anomalias radicadas exclusivamente na atividade mental do ser! 

Ele fez-nos sentir o poder fabuloso da mente e a veracidade de que o espírito pode enfermar o corpo!

Namastê / Laroyê

EXU MARABÔ, POMBAGIRA MARIA PADILHA DAS ALMAS - O QUE É LINHA DE ESQUERDA?

Um grande desrespeito, ou equí­­voco, que se comete contra as entidades da Esquerda é o fato de associá-las a malandros de rua, cafetões, pr...